Opinião

O regresso dos Talibãs

Não se consegue, e ainda bem, resumir a humanidade à partilha dos nossos valores, mesmo que se trate de direitos humanos. Existe quem não queira viver nesse crivo e quem não se reveja nele. Qual a nossa legitimidade para impor os nossos valores ou mesmo uma democracia? A resposta não é simples

20-08-2021

Ondas de Paixão, filme de Lars Von Trier.

“Bess” (Emily Watson) e “Jan Nayman” (Stellan Skarsgard) apaixonam-se e casam. Jan tem um acidente e fica paraplégico. Convence Bess que poderia curar-se se esta iniciasse uma vida sexual com outros homens e lhe descrevesse as experiências. Por amor, Bess enceta uma vida de libertinagem. Jan não queria que a sua incapacidade marcasse o fim da vida sexual da sua jovem mulher. Bess, queria salvá-lo. A devassa sexual não era compatível com o rigor moral e religioso de Bess e transformou-se em auto flagelação e decadência. Bess acabou por morrer vítima de maus tratos físicos e abusos sexuais. Lars Von Trier conseguiu incluir mais uma camada na dor que ver o filme provoca: é que Jan curou-se mesmo quando Bess morreu.

De uma história dramática há uma cena que nunca passa: a ida de Bess sozinha num pequeno barco em direção a um navio onde famintos sexuais a aguardavam. Era certo que ia correr muito mal, não era certo quão violento seria. Aquela ida de barco foi mais penosa ainda do que o que se passou a seguir.

O Lars Von Trier é diabólico. Sabe provocar o sofrimento e prolongá-lo. Sabe até torná-lo inesquecível. Raio de talento.

Há momentos assim: uma pessoa vai fazer uma coisa que sabe que vai correr muito mal. E faz à mesma. É estranho quando a coisa é dar uma opinião. Mas chegámos a esse momento.

As pessoas gostam de ler opiniões que corroborem e reforcem o que já pensavam. Não gostam muito de contraditórios. Por outro lado têm a certeza absoluta da sua razão e preferem defendê-la sem a pôr em causa. Por aqui podiam ter alguma espécie de interesse nos Talibãs, mas não é o caso.

Eu tenho. E começa aqui a coisa que pode correr mal.

Existe um consenso público relativamente à maldade dos Talibãs e é transversal da esquerda à direita, das mulheres aos homens. Esse consenso só conhece dissonâncias quando alguma esquerda se refere aos Talibãs como sendo extrema-direita ou quando surge a questão do acolhimento a refugiados ou a da análise da oportunidade e do mérito da intervenção dos Estados Unidos.

Várias razões impedem-me de participar no consenso. Escolho estas: a leitura da sua história, destaco os artigos de Robert Fisk, o seu livro “A Grande Guerra Pela Civilização”, e ter crescido na Serra do Caldeirão. Fica-se com um lado mouro. Reconheço valores nos Talibãs e reconheço motivos para terem chegado onde chegaram, causas para serem o que são.

Os guerrilheiros Talibãs cresceram nos campos de refugiados junto à fronteira do Afeganistão, no Paquistão, quando os soviéticos invadiram o país, durante a guerra e no período que se seguiu. Foram dezasseis anos. Eram campos sujos, de miséria extrema. Os Talibãs cresceram privados de qualquer estímulo ou entretenimento que não a leitura do Alcorão ou o planeamento da luta contra os opressores. A crueldade selvática das suas leis e práticas é uma evidência. É também certo que nunca as esconderam: enforcamentos, amputações, execuções de mulheres, como castigos para os comportamentos contrários aos que resultavam da sua interpretação do Alcorão.

Chegaram ao poder sete anos depois da saída da União Soviética, tendo sido um período marcado pela violência, crueldade e radicalismo islamita. Como dizia Robert Fisk, a visão política e governativa dos talibãs era, muito mais do que uma tentativa de revivalismo religioso, a recriação ou continuação da vida que conheceram nos campos de refugiados.

Foi em 2001, na sequência dos ataques do 11 de setembro e da intervenção militar dos Estados Unidos no Afeganistão, que os talibãs foram afastados do poder e começaram, até agora, um período de luta e de resistência.

Qual a relação entre a intervenção militar dos Estados Unidos e os atentados do 11 de setembro? Continua por esclarecer. A justificação dada foi a do acolhimento que os Talibãs davam à rede terrorista Al Qaeda e a Osama Bin Laden. Na verdade, a justificação dada por George W. Bush foi: “A luta do bem contra o mal”. Ora aqui está um conceito muito talibã. O povo afegão, martirizado por sucessivas guerras, não merecia tal destino. O povo afegão foi tão mártir como os mártires que estavam nas torres gémeas no dia 11 de setembro. Cerca de cinquenta mil civis perderam a vida nesta guerra. Estas vidas não podem ser menos valorizadas que as outras. Partir desta base de entendimento será o mínimo para qualquer raciocínio seguinte. De igual modo não devem ser anunciadas as atrocidades cometidas pelos Talibãs durante a guerra e ignoradas as do outro lado, também as que precederam a guerra. Não é justo. Sobretudo este procedimento internacional – e refiro-me ao de reforçar todas as crueldades cometidas por muçulmanos e o de desvalorizar as cometidas pelos Estados Unidos ou por forças aliadas – tem sido uma base da perpetuação do ódio e de um conflito civilizacional.

Recordo aqui que, numa entrevista posterior ao 11 de setembro, Bin Laden afirmou estar surpreendido por ter visto na televisão que existiam americanos a reconhecer uma relação entre a política externa dos Estados Unidos da América e os atentados. Disse que não sabia que existiam americanos assim. Recordo também que a administração de George W. Bush nunca reconheceu essa relação.

Esse é o caminho seguro para o conflito.

Porquê continuá-lo?

Esse caminho continua quando existe a incapacidade de reconhecer os erros próprios e quando está vedada a possibilidade de olharmos para quem está no outro lado com vontade de entender e com disponibilidade para admitir o que têm de bom. Alinhar na narrativa simplista da maldade dos Talibãs e na da loucura dos milhões que, no mundo árabe, clamam justiça já não serve.

Depois vem a velha argumentação que, entre nós, costuma ser infalível: é que grande parte dos islamitas não partilham dos valores que (e bem) consideramos fundamentais. É indiscutível que (é um exemplo entre muitos mas um dos mais importantes) não respeitam os direitos mínimos das mulheres.

Separem, por favor, as águas. Por acaso um homem que comete o crime de violência doméstica deve, num processo de despedimento com justa causa, ser privado do seu direito à defesa? Pode ser atropelado por um camião, numa passadeira e quando o sinal estava verde para os peões, sem direito a uma compensação?

A resposta deve ser não.

Os Talibãs, no que os opôs e opõe aos Estados Unidos, têm algumas razões que devem ser ouvidas. Esse é o entendimento de grande parte dos afegãos. Sem apoio popular o exército talibã não teria conseguido esta proeza militar que, diga-se e do que se sabe, não foi acompanhada pelo cometimento das atrocidades que seriam esperadas. Refiro-me ao processo sequente à retirada dos Estados Unidos.

A maior parte dos afegãos não deseja a presença dos Estados Unidos e, mais do que apoiar Talibãs, quer expulsar aquelas tropas e aquela presença. Outros há que não. A semente da guerra civil está lançada.

Afirmam os Talibãs que estão mudados, que não haverá banho de sangue e que os direitos da mulheres serão, dentro dos limites da lei islâmica, respeitados. Quando um depositará, nestas palavras e na capacidade destes guerrilheiros para as manter, a confiança que quiser ou conseguir. Não deposito muita. A experiência diz que o radicalismo islamita não tem essas evoluções. De qualquer forma, interessa perceber o que será melhor para todos os que lá ficam e que são opositores dos Talibãs, muito especialmente as mulheres. Interessa que seja criado um sistema massivo de acolhimento para estes refugiados ou que se estabeleçam relações com o governo dos Talibãs? Certamente não se deverá prescindir da segunda.

Foi isto que a intervenção militar dos Estados Unidos deixou para trás.

Agora um à parte a propósito de Talibãs.

A imagem daqueles homens transportados nas caixas dos camiões é, para quem cresceu na serra, extremamente familiar. Não se percebe que tenham grande preparação física ou compleições perfeitas mas são rijos. Assim são os trabalhadores ali. Chamam-se “os homens”. Os homens são chamados para a apanha da alfarroba e dos frutos secos, para a tiragem da cortiça e outros trabalhos da terra. Quando se trata de “os homens” significa que vêm em grupo, que estão organizados nas tarefas, que já se conhecem e que é juntos que trabalham.

São respeitadores mas independentes – no que fazem, na forma como fazem e muito na sua natureza. Nada a ver com subordinação. Usam cores que se confundem com as cores da serra, como se quisessem andar camuflados. Não é o caso. Dir-se-ia que não se querem destacar e é certo que nas cores da serra notam-se menos as inevitáveis nódoas que aparecem na roupa de quem faz aqueles trabalhos. Trabalham debaixo de temperaturas altíssimas mas estão sempre tapados. Nunca vi “um homem” trabalhar de tronco despido. A roupa protege do sol e do calor, o decoro também cumpre alguma função.

São homens que não privilegiam os tratamentos dentários. Não é tradição e não é, para já, um aspecto valorizado. Também os seus hábitos sociais têm particularidades. O culto do humor, que pode (costuma) ser humor duro, mas a impossibilidade de serem visados os assuntos que não são para tocar. Faz parte do código. Ao fim do dia bebem-se umas cervejas, oferecidas por quem contrata “os homens”, que são servidas na rua, numa sombra da casa. Quando os homens vão beber cerveja – que é sempre ao final da tarde, quando é agradável estar na rua - as mulheres da casa devem dar-lhes as suas cadeiras, caso estejam a ocupar algumas, e devem trazer qualquer coisa para acompanhar a bebida.

Há ali uma divisão de tarefas que tem uma marca mais profunda que a das próprias tarefas. Nunca me incomodou. Já fiz parte da conversa e das piadas mas há um momento em que um olhar, normalmente do meu pai, diz que se continuar ali a conversa entre os homens não será a mesma.

Conhecer “os homens” é estimá-los. Difícil conceber de outra forma. Vidas difíceis. Trabalho físico até à exaustão. Pessoas muito desconfiadas mas, até nisso, muito transparentes. Umas mãos que não se esquecem: palmas pretas, na época da cortiça, ásperas como a própria cortiça. Um cheiro também muito característico; uma mistura de verniz de esteva com suor saudável, terra e combustível.

Os homens cumprem as regras mas é sobretudo para não terem chatices. Se tivessem a garantia que não encontravam a GNR na estrada carregavam mais a caixa com o que houvesse para trazer e já não metiam o cinto, que aperta e não dá jeito. São rebeldes cumpridores.

São também pessoas de justiça – aqui como as outras – mas especialmente sensíveis às questões das partilhas, dos sobreiros e, claro, das infidelidades. Não gostam de falar em nada disso. Não integraram as causas progressistas, nem as ambientais: “Não deixam a gente fazer aqui nada que dê algum valor à terra e isto assim ninguém quer saber da serra”. Podem, e preferem, levar uma vida sem ter um conflito com ninguém. Mas tudo muda se se sentirem injustiçados. E é difícil levar uma vida sem isso. Não é bonito ver “um homem” zangado. Há muitas semelhanças entre todos e trazem consigo todas as marcas de terem nascido e crescido na serra. Não existe, entre eles e que eu conheça, um excêntrico. A luta pela sobrevivência não permite frescuras.

Não se consegue, e ainda bem, resumir a humanidade à partilha dos nossos valores, mesmo que se trate de direitos humanos. Existe quem não queira viver nesse crivo e quem não se reveja nele. Qual a nossa legitimidade para impor os nossos valores ou mesmo uma democracia? A resposta não é simples.

Arrisco dizer que os direitos humanos deverão ser para quem os quer ter. E, se temos a pretensão de ter conseguido chegar a um reconhecimento de direitos melhor que os restantes, então será justo que abramos a porta a quem cá quiser viver e participar. E parar de ir entregar o pacote democracia/direitos humanos a quem não o pediu. Não podemos ser o rapaz da Uber Eats, com uma mochila carregada de secretos de porco preto, à porta de um prédio de vegetarianos.

As últimas entregas não correram bem e, ainda hoje, os utilizadores se queixam.

Agora um truque que aprendi num documentário sobre carteiristas. Há um artista de rua com uma mesa à frente e, nela, três copos opacos e invertidos. Uma moeda está por baixo de um dos copos. O artista troca-os, entre si, de posição com uma rapidez que impossibilita marcar o que tem a moeda. O desafio é conseguir. As pessoas juntam-se à frente da mesa e fazem tentativas para acertar no copo que guarda a moeda. Só que o artista trabalha em equipa. E há uma parte do que se está ali a passar que não está em cima da mesa.

O artista de rua diz: “verifiquem se têm as vossas carteiras pois tenho recebido queixas de furtos por carteiristas”. Cada uma das pessoas leva a mão ao exato sítio onde guarda a sua carteira para verificar se não houve azar. O jogo dos copos continua. Aí entra o resto da equipa e, com o trabalho muito facilitado, partem para o grande objetivo: a recolha de umas quantas carteiras.

Somos estas pessoas, em frente à mesa, a tentar acertar no copo onde está a moeda. São os Talibãs muito maus? A guerra valeu a pena? A situação do país melhorou? Os Talibãs estão mesmo diferentes ou isto é uma simulação de pouca dura?

Enquanto isso, na Etiópia, o declínio do domínio dos Estados Unidos dá mais um passo. O maior aliado em África, o país da barragem que determina o nível das águas no Nilo e que pode interferir com o funcionamento do Canal Suez, virou costas aos Estados Unidos e prefere receber o Irão, a Rússia e, claro, a China. A China que também cuidou de estabelecer relações diplomáticas com os Talibãs e que, com isso, terá melhor acesso ao grande depósito de minérios preciosos do Afeganistão. A China que, também como resposta à pandemia, vê traços do seu particular sistema capitalista, alastrar às democracias mundiais. Os impérios caem.

Se são os direitos humanos o que nos interessa, então olhem mesmo para a chacina da Etiópia, para os crimes cometidos contra milhares de mulheres e crianças a quem ninguém acode e de quem ninguém fala.

O mundo está a mudar, nós também. As pessoas estão prontas a tratar de forma agressiva e violenta quem expõe uma visão do mundo diferente da sua. São as mesmas pessoas que recusam o segundo olhar aos talibãs. Como diz quem não quer dizer nada: as coisas são o que são.