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A última dança da ‘geringonça’: Costa deixou apelos em repeat, esquerda acha que é só música

António Costa pediu uma vez, duas vezes, muitas vezes aos partidos da esquerda que deixem o Orçamento chegar à especialidade, viabilizando o documento esta quarta-feira. Não há conversas agendadas para esta noite, ninguém espera um volte-face. Costa e esquerda já ensaiam os argumentos de campanha. O primeiro-ministro não se demite, assume uma "frustração" com o fim da geringonça e anuncia que será recandidato. PCP e BE acreditam que esse é o sinal de que a "vontade política" do PS é ir a eleições. Será inevitável? E será a dissolução da Assembleia imediata? Costa deixou um recado a Marcelo

TIAGO PETINGA

A meio do debate desta tarde na Assembleia da República, João Oliveira olhou para Ascenso Simões, do PS, que lhe pedia que estivesse “à altura das circunstâncias", e fez um gesto como se estivesse a tocar violinos. Para o PCP, tudo o que o Governo e o PS disseram foi música - que não lhes soou bem.

Não há volta a dar, nem danças de última hora que estejam previstas. Tudo o que se ouviu foi um som saudosista de um tempo de ‘geringonça’ que já acabou. Mesmo que todos os lados digam que não querem o fim do disco, puseram o dedo no stop e já estão a passar ao próximo álbum, ensaiando os temas que se irão ouvir em campanha eleitoral, que todos dão como certa. António Costa não se demite, assume que será recandidato nas eleições pré-anunciadas pelo Presidente da República, irá pedir condições para governar (uma forma subtil de pedir maioria absoluta sem pedir) contra a “instabilidade” que é “a direita a governar”, irá acenar com a ideia que o PS é a única alternativa a uma governação que inclua a extrema-direita; e a esquerda irá culpar o PS pela crise política.

O guião de fim da solução política à esquerda começou a ser escrito à frente de todos. António Costa entrou esta terça-feira no primeiro dia de debate na generalidade do Orçamento do Estado para 2022 (OE) com as linhas do discurso bem definidas. Em primeiro lugar, fez um último apelo à esquerda para não deixar cair o OE e, com isso, fazer tombar com estrondo a ‘geringonça’. “Nada justifica pôr termo à caminhada que iniciámos em 2016. Ainda há estrada para andar e devemos continuar”, disse na intervenção inicial, depois de garantir que “tudo” faria ao seu “alcance” para “assegurar a continuidade da nova situação política que iniciámos em 2016”. As provas a um amor acabado ainda puseram Costa a admitir que se a solução política com a esquerda chegasse ao fim seria uma “enorme frustração pessoal”.

A frase, em resposta a João Cotrim Figueiredo, tinha outro tema como pano de fundo: o problema da governabilidade do país. É que Costa defendeu que os seus seis anos de governação deram mostras que a estabilidade política é à esquerda e que, caindo tudo por terra, a conclusão é que os partidos à esquerda só se juntaram para “desfazer” o que o PSD e o CDS fizeram - e não para pensar no modelo de desenvolvimento do país. Foi aqui que começou a playlist que levará à campanha. Disse que tinha acreditado nesse “potencial” de a esquerda se juntar e que será com a tal “frustração pessoal” que verá o potencial desperdiçado. Começou aqui o pedido de condições de governabilidade, leia-se, uma forma de pedir maioria absoluta ou uma maioria maior do que aquela que tem sem o pedir.