Opinião

Uma Lição do Eleitorado Alemão: Não se Esqueça de Viver

A comunidade global trouxe-nos a vulnerabilidade perante o inimigo desconhecido: vulnerabilidade face ao terrorismo, vulnerabilidade face às pandemias, vulnerabilidade face à crise climática. Os eleitores estão conscientes da sua vulnerabilidade, mas precisam de viver e rejeitam o medo

Os resultados nas eleições legislativas alemãs terminaram com uma ligeira vantagem do Partido Social-Democrata (SPD) de Olaf Scholz (ministro das finanças de Merkel desde 2018), face à União Democrata-Cristã (CDU), de Armin Laschet e nenhum deles consegue formar governo sozinho. Os Verdes (Gruen) de Annalena Baerbock ficaram em terceiro lugar e o Partido Democrático Liberal (FDP) de Christian Lindner, em quarto. Algumas das coligações possíveis são ilustradas com os nomes das cores das bandeiras. Kenya (SPD, CDU e Verdes), Alemanha (SPD, CDU e FDP), Semáforo (SPD, Verdes e FDP), Grande Coligação (SPD e CDU) e Jamaica (CDU, Verdes e FDP). A definição do futuro governo levará meses, dependerá de Baerbock e de Lindner.

Em abril deste ano, os Verdes estiveram à frente das sondagens, com cerca de 30%, pouco tempo depois da eleição de Baerbock para presidente do partido. O seu resultado eleitoral, cerca de 15%, aumentou quase 6% face às últimas eleições, mas revela uma descida para metade, desde abril até ontem.

Baerbock tem sido destacada pela Revista Der Spiegel, tanto a sua ascensão como a enorme queda provocada pelos erros cometidos em campanha. Baerbock apresentava múltiplas qualidades para encabeçar o partido e também o governo, e as suas prioridades políticas, a crise climática e a alteração do paradigma económico estavam em harmonia com as preocupações dos seus concidadãos, abertos às ideias verdes. Os mais de 170 mortos na Alemanha, na sequência das trágicas inundações deste verão, poderiam tê-la ajudado: a prioridade está na emergência climática.

Dentro do partido, Baerbock apresenta uma rede de contactos e apoios invejáveis, os quais resultaram na sua eleição para chefe do partido. Além disso, era tida como potencialmente vitoriosa nas eleições legislativas: era a mais jovem dos candidatos, a única mulher, reconhecida por dominar ao pormenor as matérias climáticas e energéticas. Tinha propostas mais concretas para a redução do carbono e a transição da economia do que os seus adversários do SPD e da CDU, e ganhou um apoio de peso: o ex-chefe da Siemens, Kaesar. Kaeser reconheceu a competência de Baerbock e a necessidade de as novas gerações da política alemã fazerem a transição para a economia verde.

Baerbock revelou-se no entanto impreparada para comícios, esteve mais à vontade no contacto direto, publicou um livro à pressa, com inúmeros plágios, a sua equipa não fez a revisão necessária do texto. Segundo o Spiegel, terão sido esses erros e, especialmente, as suas propostas baseadas em proibições, aumento de impostos e o medo da crise climática incutido aos cidadãos, a razão para o afastamento do eleitorado.

Nestas eleições, o SPD e a CDU mantiveram-se como os dois grandes partidos alemães, provando o gosto dos eleitores pelo já conhecido e o afastamento de experimentalismos. Os longos mandatos da CDU desde o pós-segunda Guerra na Alemanha ocidental assim o demonstram. Mas a aversão dos alemães ao risco não explica tudo. A economia verde é um novo paradigma, a necessidade da transição é consensual na Europa.

Uma explicação para o fracasso de Baerbock é a sua campanha monotemática. Em geral, o apoio do eleitorado a partidos de causas (monotemáticos) sugere uma mudança de paradigma. É um sinal. Os eleitores pretendem a inclusão dessas causas na agenda política de todos os partidos: sejam elas a luta contra a discriminação, a defesa dos animais ou da natureza, ou medidas para enfrentar a crise climática. Em abril, os Verdes tiveram amplas intenções de voto, porque apresentaram propostas relevantes para a transição económica. Mas, desde então, a agenda dos Verdes tornou-se enfadonha para os eleitores.

Outra explicação para o fracasso de Baerbock é a sua campanha baseada na vulnerabilidade humana, como uma arma pseudo-política. A solução dos Verdes contra a vulnerabilidade é uma espécie de castigo e não traz votos: florestas queimadas, secas, desaparecidas. Esta ideia de nos reduzir a organismos, aos últimos humanos, parte de um mundo caótico e ameaçador, em que governar ou ser governado se torna demasiado penoso, é criticada por Wolfram Eilenberger, um filósofo alemão em contra-corrente, crítico da política como culto da vulnerabilidade. A comunidade global trouxe-nos a vulnerabilidade perante o inimigo desconhecido: vulnerabilidade face ao terrorismo, vulnerabilidade face às pandemias, vulnerabilidade face à crise climática. Os eleitores estão conscientes da sua vulnerabilidade, mas precisam de viver e rejeitam o medo.