Política

Covid-19: Ventura diz que apresentará plano de confinamento para população cigana mesmo sem apoios

André Ventura durante uma intervenção no Parlamento
Ana Baião

Presidente demissionário do Chega afirmou que "não voltará atrás nesta proposta" e que "já está a estabelecer" contactos com PSD, CDS e Iniciativa Liberal

06-05-2020

O deputado único do Chega, André Ventura, garantiu esta quarta-feira que "não voltará atrás" na proposta para um plano específico de "abordagem e confinamento" para as comunidades ciganas, e que apresentará essa iniciativa mesmo sem apoio de outros partidos.

Em declarações aos jornalistas na Assembleia da República, em Lisboa, o presidente demissionário do Chega afirmou que "não voltará atrás nesta proposta" e que "já está a estabelecer" contactos com PSD, CDS e Iniciativa Liberal "para que esta proposta vá avante, visto que considera que é necessário uma abordagem específica ao caso da comunidade cigana em Portugal", tendo pedido reuniões aos líderes dos três partidos.

Questionado sobre o que fará se não tiver o apoio das outras forças políticas, André Ventura respondeu que "vai avançar com esta proposta sozinho". "Mesmo que todos os outros partidos não aceitem a proposta do Chega, e o Chega está disposto a negociá-la desde que ela não perca a sua caracterização normal e os seus objetivos fundamentais, o Chega apresentá-la-á sozinho e procurará levá-la ao plenário para ser discutida", disse, admitindo que poderá ser "votada ao fracasso".

Em comunicado divulgado no domingo, Ventura anunciou que, na sequência dos "episódios de violência e confrontação na Praia de Leirosa, Figueira da Foz", provocados alegadamente por um grupo de pessoas ciganas, apresentará "ao parlamento, já no decurso desta semana, um plano específico de abordagem e confinamento para as comunidades ciganas, face à pandemia de covid-19".

Na nota, o deputado defendia que "o cumprimento da lei não pode ser reservado apenas para alguns, que nenhuma minoria, étnica ou racial, pode considerar-se acima da lei, e que a força pública não pode recear intervir ou agir com o eterno pretexto do racismo e da xenofobia".

Já na segunda-feira, André Ventura endereçou três cartas aos líderes do PSD, CDS-PP e Iniciativa Liberal nas quais pedia o apoio destes partidos "na redação de obrigações legais" que "consigam, de uma vez por todas, fazer cumprir as leis de forma igual a todos os cidadãos".

Nas missivas, a que a agência Lusa teve acesso, o líder do Chega defende que esse plano específico para a comunidade cigana "em matéria de saúde e segurança durante a pandemia" deveria prever "mais policiamento junto das zonas de residência dessas comunidades, maior investimento em ações de formação e sensibilização e regras de confinamento específicas", a par de "um levantamento urgente, já no segundo semestre de 2020, da composição, quantificação e localização das comunidades ciganas em Portugal".

Na carta enviada ao presidente do PSD, Rui Rio, André Ventura pede o "apoio do PSD para a apresentação de uma proposta comum a apresentar por toda a direita parlamentar relativamente à comunidade cigana" e pede uma reunião "tão breve quanto possível".

Ainda que reconheça diferenças entre os dois partidos, o líder do Chega identifica "vários pontos em comum, quer a nível da forma de pensar Portugal, quer nas atitudes perante os problemas", e alega que as comunidades ciganas, "não caindo em generalizações de qualquer tipo, representam hoje um forte problema de segurança e saúde pública nalgumas regiões do país".

"Sei, porque o vivi na pele, a oposição que existe dentro do PSD a tratar da 'questão cigana' de forma frontal, direta e objetiva, a pensar sobretudo em resolver problemas. Sempre que se levanta o problema, um coro de críticas e indignações se levantam imediatamente, como se falássemos de Auschwitz ou dos extermínios soviéticos", assinala Ventura, que foi autarca eleito pelo PSD, admitindo que a proposta poder ser "muito controversa".

Hoje, várias associações e figuras públicas, incluindo Francisco Louçã, Ana Gomes e Ricardo Quaresma, subscreveram um abaixo-assinado a repudiar as declarações do deputado do Chega sobre a comunidade cigana.

Através de uma publicação na sua conta oficial da rede social 'facebook' o futebolista Ricardo Quaresma critica que "o populismo racista do André Ventura apenas serve para virar homens contra homens em nome de uma ambição pelo poder, que a história já provou ser um caminho de perdição para a humanidade".

"Eu sou cigano, cigano como todos os outros ciganos e sou português como todos os outros portugueses, e não sou nem mais nem menos por isso", acrescenta o jogador, em declarações que André Ventura entretanto lamentou.