Política

Santos Silva não entende críticas de Merkel e rejeita que Portugal tenha “escancarado” portas aos britânicos

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

A chanceler alemã lamentou a ausência de regras comuns na UE, referindo em particular o caso português numa altura em que são cada vez mais as infeções no Reino Unido provocadas pela variante Delta. O ministro dos Negócios Estrangeiros alega que Portugal se limitou a aplicar as diretivas em vigor

23-06-2021

Augusto Santos Silva não compreende as críticas da chanceler alemã relativamente à abertura de portas de Portugal aos britânicos. Para o ministro dos Negócios Estrangeiros, as declarações de Angela Merkel são “difíceis de entender”. Em audição na comissão parlamentar de Assuntos Europeus, o ministro rejeitou esta quarta-feira que o país tenha “escancarado” a porta aos turistas britânicos.

“É difícil de compreender as posições de governos de Estados-membros que agora querem propor novos critérios”, afirmou. “Nós dissemos foi que os viajantes britânicos que vinham e vêm para Portugal, apresentando um teste negativo à chegada – realizado nas últimas 72 horas –, podem entrar em Portugal”, acrescentou, sublinhando que as autoridades se limitaram a aplicar as diretivas em vigor.

E prosseguiu: “Não vejo que isso seja alguma maneira de escancarar Portugal aos ingleses sem o cuidado de verificar as suas condições de saúde no que diz respeito à covid-19.” Na resposta a uma pergunta do PCP, Santos Silva afirmou igualmente que o que Portugal fez em relação aos britânicos “é o que a partir de 1 de julho será mandatório no âmbito da União Europeia [UE]”.

Merkel lamentou na terça-feira a ausência de regras comuns na UE, referindo em particular o caso português numa altura em que são cada vez mais as infeções no Reino Unido provocadas pela variante Delta. “Temos agora uma situação em Portugal que talvez pudesse ter sido evitada e é por isso que temos de trabalhar ainda mais nisto”, declarou a chanceler alemã numa conferência de imprensa conjunta com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

“Lamento que ainda não tenhamos conseguido definir regras comuns em termos de restrições de viagens. Nos últimos meses, foram feitos grandes progressos mas ainda não estamos onde eu gostava que a UE estivesse”, disse ainda Merkel. Segundo a chanceler, os Estados-membros continuam a insistir em adotar abordagens distintas relativamente à nova variante do vírus.

“Bacoca vassalagem futebolística

A propósito destas declarações, a deputada social-democrata Isabel Meireles considerou “justa” a “indignação” de Merkel e criticou também ela o Governo pela permissão da entrada dos britânicos numa altura que coincidiu com a final da Liga dos Campeões, no Porto.

Portugal não se coordenou [na resposta à pandemia] e, por isso, tivemos de ouvir a justa indignação da chanceler Merkel por termos deixado entrar os britânicos, que nos trataram com uma vexatória desconsideração e a quem infelizmente prestámos uma bacoca vassalagem futebolística, apontou a deputada do PSD.

Santos Silva pediu responsabilidade, lembrando que esta deve estar presente não apenas nos períodos de governação, mas também durante os períodos de oposição. Certamente haverá entre os social-democratas gente muito experimentada em matéria de política externa, que espero que emende a mão e traga o PSD de novo ao caminho da responsabilidade, vincou o ministro.

“Uma vergonha desnecessária

Já na terça-feira, o líder do PSD, Rui Rio, tinha acusado o Governo de estar a fazer Portugal passar por uma vergonha desnecessária, considerando que, depois da vexatória desconsideração do Reino Unido, os portugueses têm agora de ouvir a justa indignação da chanceler alemã.

No seguimento da intervenção de Isabel Meireles, o ministro considerou “extraordinárias” as críticas de Rio, tendo em conta que, menos de um mês antes da permissão dos voos com o Reino Unido, o PSD atacou o Governo por ainda não ter aberto as fronteiras aos turistas britânicos.

Um mês depois, o mesmo partido trata isso como vassalagem futebolística e presenteia os nossos mais antigos aliados com expressões como aquelas que a senhora deputada usou, criticou o ministro.