Opinião

Saltar a cerca sem nunca derrubar o muro

A geringonça não destruiu qualquer obstáculo, antes manteve. Seis anos de convívio não consolidaram a Esquerda, antes a desuniram. E o país caiu num pântano que reduz o de António Guterres a uma poça de água

25-10-2021

Quando a bola cai no quintal do vizinho, o garoto salta a cerca para a ir buscar e volta rapidamente ao seu campo. Também pode juntar-se ao vizinho, tentar aproximar-se dele, estabelecer com ele pontos de encontro, definirem uma estratégia comum e acabarem por derrubar o muro que os separa e, embora mantendo cada um as suas posições no jogo, irem consolidando a equipa. Que será ainda mais forte, se conseguirem deixar de saltar a cerca que os separa de um terceiro vizinho e, com o melhor deste, reforçarem a equipa.

Há seis anos, António Costa disse que o PS tinha derrubado o muro que dividia as esquerdas. Enganou-se ou enganou-nos. O que estes anos foram mostrando é que ele apenas pulou a cerca, foi buscar a bola e assegurou-se, após conversas com cada um deles, que não lha tiravam se ela voltasse a ir parar a um dos quintais. Mais, conseguiu mesmo convencê-los a que, mesmo que partisse um ou dois vidros das casas, eles o encobririam e que acabariam por os consertar.

Verdade seja dita que os vizinhos, assustados que estavam por não terem com quem jogar, embarcaram na aventura, principalmente temendo que, se não se entendessem, pudesse aparecer por lá uma equipa de que não gostassem. Contentaram-se em continuar a saltar a cerca, também não quiseram destruir o muro e limitavam-se a pular de cada vez que o capitão da equipa os chamava. Queriam era entrar no jogo e amealhar umas vitórias.

"Em 2021 continuam tão afastados como estavam na campanha de há seis anos"

Assim, o tempo foi passando. Cada um no seu quintal, saltando ora com alegria ora com dificuldade, consoante a jogada do outro. Cada vez que a bola passava, lá iam umas flores ao chão, lá se partiam uns ramos, mas nada que não se conseguisse disfarçar.

Até que os vizinhos perceberam que só no lado deles é que o bucho, as sardinheiras e as hortênsias se partiam. No outro, as rosas floresciam. E eles continuaram a ir a jogo, mas cada vez menos convictos. Até que um dia...

Em 2015, após as legislativas, o papão da direita juntou-os. Mas que fizeram PS, BE e PCP para consolidar a união? Em 2021 continuam tão afastados como estavam na campanha de há seis anos. Em 2019, quando um deles teve esperança de poder dispensar os outros, trocaram-se acusações que se podem perdoar, mas dificilmente esquecer. Uns faziam falta quando atacavam, os outros quando defendiam. O PS, para a maioria absoluta, precisava de roubar adeptos aos vizinhos. E conseguiu, mas não o suficiente.

O jogo recomeçou, mas já nada era igual. Todos temiam que, à primeira oportunidade, alguém deixasse de devolver a bola.

Foram seis anos em que nunca se sentaram todos à mesma mesa. Reuniões, apenas, dois a dois com o capitão da equipa, mas nunca os três à mesma mesa. Nunca fizeram um estágio conjunto, nunca tentaram uns Estados Gerais da Esquerda, todos mantiveram a ortodoxia. Não buscaram pontos de encontro, não conseguiram nada que os unisse – a não ser o medo de que aparecesse alguém que os vencesse. Coisa de que ninguém queria ter culpa. Mas nada, absolutamente nada, durante seis anos, mostrou a coesão que é necessária em qualquer equipa. Nem que fosse um jantar a três em época natalícia. Nada. Nem nas questões ditas de género, nem na política de Ambiente, nem na Educação, nem na Saúde, nem na Justiça. Uns queriam mais, o outro dava de menos. Fizeram a gestão do dia seguinte, sem pensar no amanhã. Não se uniram, nem no debate sobre as questões da “modernidade”: as migrações, o impacto das novas tecnologias, a sustentabilidade, o envelhecimento das populações ou a forma de aproveitar a crescente formação académica dos mais novos. Cada um amealhava o que podia.

Até que… Até que se confirmou que tudo não passou de saltar cercas e que, afinal, o muro ainda lá estava.

"Haja ou não Orçamento do Estado, o país cairá num pântano"

Assim se chegou a uma situação em que, mesmo que mais uma vez venham a jogar juntos, a dois ou três, mesmo que um fique sentado no banco, mesmo que vençam mais uma partida, nada ficará como dantes. O capitão não terá pontas de lança em quem confiar e a qualquer momento poderá haver alguém que se ponha em fora de jogo.

Em 2001, António Guterres demitiu-se de primeiro-ministro. Mantinha metade do Parlamento, 115 deputados, mas perdera muitas câmaras nas autárquicas. Ficara com menos 29 que o PSD, e considerou que naquele ambiente político não mais conseguiria as aprovações que viessem a ser necessárias na Assembleia da República. Foi-se embora, para que o país não caísse num pântano.

Haja ou não Orçamento do Estado, o país cairá num pântano. Pensando no que aí pode vir, o que Guterres quis evitar era, afinal, uma poça de água cristalina. Verdadeiramente preocupante é que ninguém sabe se novas eleições escoarão as águas lodosas.