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“Sabe o que se diz dos Canaviais? Que é o bairro sempre em festa”

Alentejo: neste sossegado bairro de Évora “todos se ajudam uns aos outros, como se fossem família”. Tanto na vida como na organização das inúmeras festas que lá se fazem. “Eles não param. É isso que o torna diferente”

Sou de Melides e nunca pensei que vinha aqui parar, ao interior do Alentejo, e que ia voltar à restauração. Foi o meu enteado que me pediu ajuda e vim. Eram para ser três meses, já cá estou há oito e quero ficar até ao fim do contrato, que é de cinco anos. Depois de se conviver nos Canaviais, é difícil sair daqui. Fazem-nos sentir como se já vivêssemos aqui há muito tempo”, conta o gerente do restaurante do Grupo Desportivo, Manuel Henriques, 57 anos. “O bairrismo e o espírito de grupo são tão bons que, sem querer, és um canaviense”, diz.Se há característica que define os Canaviais — uma freguesia de pouco mais de três mil habitantes a cerca de cinco quilómetros de Évora — é o espírito de grupo. Neste bairro de casas térreas, e onde o sossego é tão grande que se ouvem as folhas secas a raspar no alcatrão, há uma comunidade de dinâmicos e incansáveis moradores, que se organizam e juntam para promover e melhorar o bairro e que se apoiam uns aos outros como se fossem família de sangue, sem preconceitos ou discriminações. “Quando nos mudámos, eram os vizinhos que ficavam com os meus filhos ou iam buscá-los ao ATL. Às vezes nem sabia onde andavam”, conta Nuno Henriques, um engenheiro zootécnico de Santarém que vive nos Canaviais há mais de 20 anos. “Vim para a Universidade de Évora aos 18, conheci lá a minha mulher, que é de Lisboa, casámos e calhou virmos para aqui e gostamos muito. É como uma comunidade, onde há segurança e confiança”, acrescenta.Tanto assim é que, nesses 20 anos, Nuno entregou-se de corpo e alma ao bairro que agora também é seu. Além de estar na Associação de Pais, é, desde janeiro de 2021, o atual presidente da Casa do Povo, uma das forças motrizes das inúmeras atividades que há nos Canaviais, tanto para moradores como para gentes de fora. É ali que fica o ATL onde a educadora Célia mete na ordem cerca de 30 crianças de várias idades, e também um dos polos da Universidade Popular Túlio Espanca, com aulas de Inglês, História, Informática, Dança, Música ou Teatro para adultos com mais de 55 anos. E é também onde se organizam, todos os meses, um ou dois grandes eventos. “Em 2010 precisávamos de €180 mil para recuperar o edifício e candidatámo-nos a um projeto da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, mas só nos deram 45%. Então pedimos dois empréstimos e para os pagar tínhamos de fazer alguma coisa. Decidimos fazer festas”, conta Ana Pedrosa, 70 anos, que presidia à Casa do Povo na altura. Assim nasceram o Grupo de Cantares Alentejanos, a prova de vinhos, doces e sopas, a matança do porco, os “panelões” de feijoada, cozido, ensopado de borrego e rexina — “uma sopa feita com o sangue do porco” —, as marchas de São João, as festas de verão, as noites de fado ou as “brincas”, uma tradição de Carnaval típica dos Canaviais, na qual os homens se mascaram e andam pelo bairro a fazer um teatro falado e cantado. E tudo feito pelos moradores, de forma voluntária, como numa das noites de preparativos das festas de verão. Ainda não eram 20h30, a hora marcada para começar, e já umas 20 pessoas estavam numa azáfama.

Sempre em festa

A Casa do Povo não é a única a organizar eventos. Aliás, “sabe o que se diz dos Canaviais? Que é o bairro sempre em festa”, atira Marta, 29 anos. Por exemplo, no Grupo Desportivo faz-se o Festival do Marisco, o porco no espeto, bailaricos, e, este ano, Manuel disponibilizou o espaço para fazerem lá “brincas”. “Pedi um palco à câmara e ofereci o almoço e o jantar aos miúdos que se mascararam”, conta. Na Associação de Reformados, Pensionistas e Idosos de Canaviais (ARPIC) organiza-se uma sardinhada, e o atual presidente, Manuel Caroço, criou o Grupo de Acordeonistas, que, tal como o Grupo de Cantares, dá concertos pela região. E na igreja, escondida num largo de terra batida ao fundo de uma curta estrada, “também se organiza uma festa no final de agosto”, acrescenta Ana Pedrosa.Conclusão: “Quase todos os fins de semana há coisas a acontecer”, conta ainda Marta.

Ideias para um Bairro Feliz

  • “Os projetos devem ser pensados com base na inclusão social, porque não há só pessoas funcionais”, diz Nelson Rocha, da incubadora social Casulo Loulé
  • “A proximidade às pessoas e a zonas de lazer é importante até para a saúde. A felicidade contribui para a imunidade”, diz Daniela Seixas, médica e CEO da TonicApp

O que é o Bairro Feliz

O projeto

O Bairro Feliz é uma iniciativa do Pingo Doce, a que o Expresso se associa, e que tem como objetivo melhorar a qualidade de vida nos bairros. Para isso é lançado um desafio onde entidades locais ou grupos de vizinhos inscrevem projetos “que promovam um impacto positivo” nos seus bairros. As ideias são depois analisadas por um painel de jurados e levadas a votação popular nas lojas.

As ideias

Enquadram-se em seis áreas: ambiente; apoio animal; apoio social e cidadania; cultura, património, turismo e lazer; educação, e saúde, bem-estar e desporto.

O prémio

Inscreveram-se associações, IPSS, fundações, cooperativas, entidades públicas ou privadas e grupos de vizinhos com cinco pessoas. Cada vencedor ganha até €1000 para desenvolver o projeto.

Os prazos

As candidaturas já terminaram e estão agora a ser avaliadas pelos jurados. Serão coladas nas lojas, para votação, de 10 de setembro a 22 de outubro.

Saiba mais

Em pingodoce.pt/bairrofeliz. E acompanhe no Expresso e na SIC.

Bairros mais felizes

O que pode tornar os nossos bairros melhores? Que ideias novas, que projetos? O que precisamos para melhorar a nossa qualidade de vida? Pelo segundo ano consecutivo, o Expresso associa-se ao projeto Bairro Feliz, um desafio lançado pelo Pingo Doce a todos os bairros, a todos os vizinhos, para descobrirem e apostarem em novas ideias. Acompanhe a nossa viagem ao longo dos próximos meses, do continente à Madeira e aos Açores. Sempre nas páginas do Expresso.

Textos originalmente publicados no Expresso de 5 de agosto de 2022