Cultura

“Apocalypse Now”: a impressionante terceira vida de um filme visionário

02-01-2020

“Apocalypse Now: Final Cut”, de Francis Ford Coppola

Em 2001, Francis Ford Coppola brindou-nos com uma versão aumentada do seu genial épico sobre a Guerra do Vietname. Agora, para celebrar os 40 anos da estreia do filme em Cannes, oferece-nos um 'final cut' que o torna ainda mais perfeito

Em 2001, Coppola brindou-nos com uma versão aumentada (a versão redux, cerca de 50 minutos mais longa) do seu genial épico sobre a Guerra do Vietname. Agora — e para celebrar os 40 anos da estreia do filme em Cannes (de onde saiu com a Palma de Ouro no bolso) —, o cineasta oferece-nos um final cut que constitui o justo meio entre as duas prévias encarnações da obra. Nela, Coppola preserva os acrescentos capitais que introduzira na versão redux (o longo excurso por uma fazenda francesa perdida nas selvas da Indochina, as extravagantes sequências que dizem respeito ao roubo de uma prancha de surf...), prescindindo das cenas que pouco ou nada haviam trazido de novo ao filme: a do segundo encontro da patrulha com as coelhinhas da “Playboy”, por exemplo.

Posto isto, que fique claro: mais cena, menos cena, “Apocalypse Now” continua a espantar-nos, hoje, pela força de uma visão que transcende o seu objeto específico (a Guerra do Vietname), para forjar um arriscadíssimo estudo sobre o delírio da guerra e do poder tout court. Para fazê-lo, Coppola descreve uma viagem que herda a sua estrutura e o seu sentido daquela que alimenta “O Coração das Trevas”, de Conrad, convidando o capitão Willard (Sheen, anestesiado) a seguir pelo rio Nung acima, de modo a tentar localizar, no interior da selva cambojana, um coronel do exército americano que alegadamente teria enlouquecido (Brando, mastodôntico). Trata-se, na sua essência, de uma viagem estacionária, balizada por uma série de espetaculares set pieces psicadélicas que, num registo muitas vezes tragicómico, se vão justapondo segundo um princípio de intensidade e insanidade crescente, até desaguarem numa notável meditação poética sobre o horror que não envelheceu uma ruga. E é por causa do alcance universal da leitura que nos propõe que “Apocalypse Now” continua e continuará a ser um dos raros filmes aos quais assente bem o adjetivo ‘visionário’.

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Apocalypse Now: Final Cut
De Francis Ford Coppola
Com Martin Sheen, Marlon Brando, 
Robert Duvall (EUA)
Drama M/16