Sociedade

Gouveia e Melo: “Nos exercícios da NATO ataco os ingleses, porque lhes quero tirar o snobismo. Não gosto de snobes”, diz. E ri-se

Em entrevista ao “Nascer do Sol”, o vice-almirante revela vários aspetos pessoais e recorda o passado em África, onde tudo era diferente - e para onde se vê a regressar quando se reformar

26-06-2021

Numa entrevista confessional ao “Nascer do Sol”, o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo revelou-se um homem dividido entre África (viveu “até à adolescência”) e Portugal, um miúdo “que ia para o mato” africano onde as “iniciações sexuais davam-se mais cedo” e que quando cá chegou, a Viseu, deixou “de namorar” por achar “os bilhetinhos” que a “namoradinha” lhe “atirava para o chão” eram “ridículos”. E admite: “Tinha algum sucesso com as raparigas. Os meus colegas pediam-me conselhos nessa matéria”.

Gouveia e Melo também define o perfil do português no qual não se revê: o que tem medo e o que sente inveja. “Na Marinha sempre quis fazer as coisas mais esquisitas, mais difíceis, porque achava que eram as mais interessantes, mas sentia receio nos meus colegas. A maior parte das pessoas que viveram comigo parte do meu percurso nunca conseguiram entender o que me motivava. Há quem diga que fiz 31 dias num submarino porque era ambicioso. Ninguém quer sofrer 31 dias por ser ambicioso”.

Disciplinado “desde pequeno”, um estudante “preocupado, muito focado”, o coordenador da task force da vacinação assume no entanto que era “um jovem como muitos outros” que se “divertia como os outros rapazes” - mas com moderação. “Como não bebia, era o ‘carro vassoura’ que tinha de os levar para casa. Apenas para fazer um brinde. Não gosto. Beber e sentir que podia perder o controlo fazia-me muita aflição. Uma vez bebi uma cerveja: aquilo era amargo. Foi a última”.

Por outro lado, o vice-almirante assume um lado competitivo que não gosta de perder. “Nos exercícios da NATO sou o mais sanguinário possível. Se entra um inglês no exercício, é o primeiro que ataco porque lhes quero tirar o snobismo. Não gosto de snobes. Aos franceses também não perdoo, porque são chauvinistas, e os alemães também não deixo escapar porque tenho família judaica (risos).” Gouveia e Melo acrescentaria ao Expresso que, na verdade, estava a ironizar e que preferia começar a atacar os britânicos sobretudo por serem "os mais difíceis" e por terem "os melhores submarinos". Embora numa situação de guerra real a regra fosse atacar os navios mais fracos ou vulneráveis, a estratégia de Gouveia e Melo em exercícios era começar por atacar "os melhores" por uma questão de treino, explica.

A vacinação

No papel de coordenador da task force, o vice-almirante fala de Francisco Ramos, a quem sucedeu quando este se viu embrulhado numa polémica com contornos políticos. “Um político não é um logístico e não está habituado a enfrentar.” Sobre o processo de vacinação - e a prevalência da variante delta -, Gouveia e Melo garante “a maior incidência é nos concelhos mais populosos porque não há vacinas para avançar ao ritmo que desejávamos”.

Se esta nova variante obriga a vacinar uma percentagem maior para atingir a imunidade de grupo é algo que o militar não confirma. “Ninguém tem prova disso. A variante propaga-se mais mas é igualmente contida pela vacinação. O que acontece é que há pessoas que estão apanhar porque só têm uma dose e uma dose protege pouco, sobretudo com a dose da AstraZeneca, e é isso que eu estou a acelerar agora. Protege muito, deixa é escapar alguns. Se tiverem as duas doses não deixa escapar nenhum.”

Um dia que termine este processo, Gouveia e Melo confessa que poderá “ir para África fazer alguma coisa”. Para um retiro? “Para fazer um retiro espiritual, tinha de ter duas coisas: uma corda e uma árvore para me enforcar”.

Artigo atualizado às 23h28 com as declarações de Gouveia e Melo ao Expresso