Quase 47% dos estudantes da Universidade de Lisboa sentem dificuldades financeiras na gestão do seu dia-a-dia, e destes, quase 60% já consideraram abandonar o Ensino Superior por causa dessas mesmas dificuldades. Os números são de um inquérito levado a cabo pela Associação Académica da Universidade de Lisboa (AAUL) durante a atual pandemia, e que contou com 122 respostas.
Segundo os resultados do inquérito, é no pagamento das propinas (63,2%) e no alojamento (47,4%) que os alunos mais sentem dificuldades financeiras, seguindo-se a alimentação (40,4%) e a compra de material escolar (40,4%). Por fim, os custos com os transportes são também referenciados por 33,3% dos inquiridos como um entrave económico. As consequências desta pressão financeira são visíveis na alimentação dos alunos: 23,3% de todos os alunos inquiridos - ou seja, quase um quarto do universo - admitem que já deixaram de almoçar ou de jantar por não terem dinheiro suficiente para o fazer - e 37,5% passa por isso entre duas a quatro vezes por semana.
O inquérito foi difundido através das redes sociais da AAUL e realizado de forma anónima e voluntária por 122 estudantes de 14 faculdades e institutos pertencentes ao universo da UL, durante o mês de janeiro e até à segunda quinzena de fevereiro, já depois do encerramento das universidades. No total, 63,1% dos alunos responderam que não recebiam nem nunca receberam qualquer bolsa de estudo no Ensino Superior. Ao mesmo tempo, 32,8% admitem que têm de trabalhar ao mesmo tempo que estudam, para conseguirem fazer face às despesas exigidas. Destes, a maior parte opta por part-time em regime fixo (44,7%) e por part-times pontuais (36,8%). Além disso, 13,2% dos estudantes dizem que, enquanto estão a tirar a licenciatura ou o mestrado, trabalham a tempo inteiro.
Apesar de tudo, a esmagadora maioria dos estudantes inquiridos garante que nunca deixou propinas em atraso por estar com dificuldades em pagar nos prazos estipulados. Esta percentagem é de 68,9%, superior aos 31,1% que já foram forçados a pagar os estudos fora de horas por não terem dinheiro suficiente.
No que toca ao tipo de alojamento onde estes estudantes vivem, há um indicador pouco surpreendente: apenas 8,2% estão em residências universitárias do Estado, um número natural dada a atual escassez deste tipo de locais para alunos do Ensino Superior, em Lisboa e não só. Assim sendo, 49,2% dos inquiridos responderam que vivem numa casa arrendada, e 42,6% disseram que vivem numa casa própria. Da metade que aluga um espaço para morar, a esmagadora maioria garante que nunca se atrasou nos pagamentos das prestações da casa por carências financeiras: 67,6%, contra 32,4% que já passaram por esse problema. Ora, 18,4% dos estudantes sente que não têm “condições dignas de habitação” no local onde atualmente vivem, apenas e só por causa de constrangimentos financeiros - ou seja, não têm dinheiro para ir morar para outro sítio.
Consequências só no próximo ano letivo
Os resultados do inquérito “batem certo” com a realidade que chega ao conhecimento da AAUL, diz ao Expresso Hélder Semedo, presidente da associação de estudantes. “Temos tido pedidos de ajuda pontuais, desde material escolar, propinas, e alimentação. Conseguimos dar resposta através do Serviço de Apoio Social ou através da Rede Social de Lisboa. As situações vão surgindo e vamos tentando resolver”, aponta. "Há mais pedidos de ajuda agora do que numa fase inicial da pandemia, porque na maior parte dos casos havia uma rede de conforto que agora pode estar mais comprometida, porque as famílias perderam rendimentos, e os próprios alunos deixaram de poder trabalhar naqueles empregos sazonais", retrata.
No segmento do inquérito dedicado à alimentação, aliás, os números são relevantes: mais de metade dos estudantes (54%) trazem - ou traziam, antes do confinamento - o almoço de casa, e destes, 43,5% admitem que o fazem devido a dificuldades financeiras. Além dos 23,3% que admitem já terem deixado de almoçar ou de jantar por não terem dinheiro suficiente para o fazer (e destes, 37,5% passa por isso entre duas a quatro vezes por semana), o mesmo acontece com o pequeno almoço e o lanche a 35,3% dos alunos: como não conseguem pagar as refeições intermédias, ficam sem comer. Tal como nos casos do almoço e do jantar, um terço dos estudantes passa por esta situação entre duas a quatro vezes por semana.
Já no que toca ao material escolar necessário, 36,1% dizem que já ficaram sem comprar coisas de que precisavam para a frequência do curso ou do mestrado devido a falta de dinheiro - e na esmagadora maioria dos casos (92,9%) esse material era importante para o desempenho e aprendizagem do aluno. Por fim, os dados sobre os meios de transporte: como seria de esperar, a maioria dos alunos desloca-se para a universidade de transportes públicos (77%) e destes mais de um quarto dos alunos (25,4%) admitem que já ficaram em terra por não terem dinheiro suficiente para comprar o respetivo passe.
"Só agora estamos a começar a perceber os efeitos reais da pandemia e acredito que as consequências desta crise serão visíveis sobretudo no próximo ano lectivo, e não agora", alerta Hélder Semedo. No final do inquérito, seis estudantes da UL pediram que os seus casos fossem sinalizados aos Serviços de Ação Social da Reitoria da Universidade. "