Sociedade

TAP leva brasileiros e traz portugueses, mas deixa pessoas para trás. Conheça quatro histórias de quem ficou com a vida em suspenso

Doenças graves por tratar, uma mãe separada do filho, empregos por um fio e poupanças que já não o são. Suspenderam-se os voos entre Portugal e o Brasil, mas, mais do que isso, suspenderam-se as vidas de centenas de pessoas. Voo extraordinário da TAP vai resolver algumas situações, mas “não será suficiente”. Ministério dos Negócios Estrangeiros garante apoiar quem ficar para trás

25-02-2021

Inércia é tudo o que Portugal tem para lhe oferecer neste momento. Flaviana Leite tem um cancro na tiróide, mas o SNS só está a operar casos urgentes e os médicos de Tavira, no Algarve, puseram-na em lista de espera. “Eu só sei que tenho um cancro porque fiz as análises no privado. Depois disso, fiquei sem dinheiro”. Flaviana comprou três passagens para si e para os dois filhos, pela companhia aérea Azul, para se ir tratar ao Brasil com o apoio da família que cá não tem. Para trás ficaria o marido, camionista. Embarcavam no dia 30 de janeiro, mas os voos foram suspensos a 29.

“Sinto-me presa sem poder fazer nada”, desabafa. Não sabe para onde mover as peças deste xadrez. Se pedir o reembolso dos bilhetes que já comprou, arrisca-se a não viajar nos primeiros voos depois do confinamento, seja lá quando isso for. Como alternativa, tem o voo da TAP, negociado pelos Governos português e brasileiro, que se realizará esta sexta-feira, 26 de fevereiro, feito “por razões humanitárias”, segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas cujos bilhetes custam mais de €800. “Pediram-me R$16 mil (cerca de €2500) por três passagens. Se eu tivesse esse dinheiro, tinha ido, mas não tenho”, diz Flaviana.

Na outra ponta do país, em Braga, Dayse Vianna tem apenas um quarto para uma família de cinco. “Estamos desempregados e já começámos inclusive a receber ajuda. Já entrámos nessa fase", explica ao Expresso, "Quisemos voltar para o Brasil antes de nos endividarmos, mas as passagens estavam muito caras”.

Vieram tentar a sua sorte em Portugal há pouco mais de um ano pela mesma razão que quase todos os brasileiros o fazem: qualidade do ensino e segurança. Longe estavam de saber que este era, na verdade, um passo em direção ao abismo criado pela pandemia. Caíram desamparados na esperança de que o pé de meia pudesse amortizar a queda. E amortizou.

Aguentaram durante um ano na esperança de que as coisas mudassem, mas os empregos a que têm acesso são os primeiros a dissiparem-se no nevoeiro pandémico. A partir daí, a situação piorou a passos largos. Congelaram o curso superior do filho mais velho e mudaram-se de Lisboa para Braga para reduzir o custo de vida. “Quisemos arranjar casa, mas quando eles [os senhorios] sabem que somos brasileiros, pedem muitas rendas em avanço”, explica Dayse. Acabaram no alojamento que podem pagar, com apenas um quarto. “É horrível”.

Do outro lado do Atlântico, Daniel Martins, brasileiro, mestrando em História na Universidade do Porto há cerca de dois anos e agente imobiliário, sabia o risco que corria ao viajar com a mulher e os dois filhos para o Brasil em plena pandemia, mas os problemas de saúde da mãe falaram mais alto. Os empregos em Portugal, o seu e os da família, estão todos por um fio. “Felizmente, sou uma das poucas pessoas que já conseguiu lugar no voo da TAP”. Conseguiu porque viajou com a companhia portuguesa para lá. “Depois de muito tempo à espera, num sufoco, eles fizeram a transferência das minhas passagens, mas eu estou em Fortaleza e o voo vai acontecer de São Paulo para Lisboa”. Os custos de atravessar o Brasil de lés a lés ficam por sua conta e risco. “É o mal menor no meio desta situação toda”, descreve Daniel.

Catarina Miranda também vai conseguir viajar. A professora universitária e cidadã portuguesa ainda é residente no Brasil, apesar de estar há um ano a mudar-se para Portugal. “É uma situação que me está a causar muito sofrimento. Nunca passei tanto tempo sem ver o meu filho”, conta ao Expresso. Voltou ao Brasil em janeiro para ir buscar o Caju e a Castanha, os dois cães da família que, por não serem coisas, ficaram lá, à espera do momento oportuno para viajar confortavelmente.

Em Portugal, Catarina tem à sua espera o marido e o filho de 11 anos. Também vai conseguir embarcar no voo da TAP que vai partir este fim de semana de São Paulo, mas até ter recebido a notícia não sabia o que fazer. “Infelizmente, os Governos português e brasileiro encontraram uma solução para as pessoas que vieram para cá na TAP, mas não encontraram para quem viajou noutras companhias”, diz. Durante a espera, Catarina criou um abaixo-assinado que pedia o “retorno de cidadãos portugueses e de residentes em Portugal retidos no estrangeiro”. Neste momento, conta com mais de mil assinaturas. Numa primeira instância, explica Catarina, “os serviços consulares aconselharam as pessoas a procurar rotas alternativas, que são uma solução cosmética, de fachada, em que Portugal continua a receber pessoas do Brasil não recebendo”.

Ao Expresso, o Ministério dos Negócios Estrangeiros diz que “ainda é cedo para concluir se ficarão por resolver outras situações de pessoas que precisam de se deslocar para Portugal por razões de força maior, atendíveis por motivos humanitários”, mas que, se isso acontecer, “claro que o Governo português tratará de apoiar a realização de outro voo”. Este é realizado “por razões humanitárias”, mas quem tinha passagens de outra companhia aérea vai ter de comprar bilhetes novos que custam mais de €800. “Os custos são os de uma operação extraordinária ad hoc”, diz fonte oficial da TAP. “Para realizar um voo humanitário, sem custos para quem viajou noutras companhias e está retido, o Estado português teria de ter fretado aviões à companhia ou usado meios próprios”, conclui.

De Portugal para o Brasil o problema persiste. Ricardo Amaral Pessôa, presidente da Associação Brasileira de Portugal, ofereceu-se para recolher todos os dados dos brasileiros que tinham as suas passagens compradas, não conseguiram viajar e perpetuam agora a sua estadia em Portugal, muitas vezes em condições desumanas. “Não virem costas à diáspora brasileira”, apela Ricardo Pessôa ao Governo brasileiro. “Ninguém está a pedir esmola. Estas pessoas compraram passagens, ficaram sem o dinheiro e estão impedidas de viajar”.

A Associação Brasileira de Portugal recebeu, nos últimos dias, inúmeros relatos de brasileiros no país que estão em situações de carência e que não vão conseguir viajar para o Brasil neste voo organizado pelos dois governos. A Casa do Brasil também conta um aumento no número de pedidos desta natureza. “O Governo brasileiro não está realmente preocupado com este problema. Não só com a questão dos voos, mas também com a situação socioeconómica da diáspora brasileira. Não querem saber quantos são, quais são as situações. Não só não têm demonstrado essa preocupação, como há muito ruído na comunicação. E as pessoas sentem-se desamparadas por não haver informação clara por parte dos consulados”.