Paulo Marcelo é um homem magro e nervoso e as constantes repreensões do juiz Rui Coelho não o ajudam a acalmar. O vigilante esteve de serviço no aeroporto de Lisboa no dia 11 de março de 2020 e foi encarregado de vigiar Ihor Homeniuk, quando o imigrante ucraniano começou a ter um comportamento "anormal" depois de o SEF lhe ter recusado a entrada em Portugal. "Foi uma noite difícil. Gritou a noite toda", descreveu o segurança que deixou de trabalhar no aeroporto depois da morte de Ihor. "Só fiz mais um turno".
Já de manhã, depois de os inspectores Laja, Sousa e Silva terem sido chamados pelo vigilante que substituiu Paulo Marcelo e que não estava disposto "a aturar" uma noite igual, a testemunha contou que ouviu "gritos muito diferentes" - "ai ai ai", reproduziu a testemunha - e sons como "se alguém estivesse a bater num cão". Alertado, Marcelo foi à porta da sala dos Médicos do Mundo para ver o que se passava e viu "Ihor de joelhos", com "o pé do inspector Laja na cabeça", enquanto lhe dava "uma bastonada nas costas".
"Só vi dar uma, não sei se deu mais. E depois disseram-me 'isto aqui não é para ninguém ver' e eu saí", recorda.
Problema: nas duas declarações oficiais que já tinha feito, em abril e em junho, Paulo Marcelo começou por dizer que viu Ihor "sentado" e que "não" viu qualquer agressão. Depois, testemunhou que o viu "de lado" e que o inspector Laja o tinha ameaçado com um pontapé. Não falou de bastonadas.