Peter Thomson, que já foi o representante permanente das Fiji na ONU, encerrou nesta terça-feira, 23 de fevereiro, a conferência internacional online do Clube de Lisboa sobre o tema “O Oceano que Pertence a Todos”. A iniciativa da associação presidida pelo embaixador Francisco Seixas da Costa - que abriu a conferência na segunda-feira com Maja Kostelac, diretora executiva da Agência Europeia de Segurança Marítima (que tem sede em Lisboa) - contou com a intervenção de dezenas de especialistas de todo o mundo, distribuídos por seis painéis sobre a invasão dos plásticos, a extensão das plataformas continentais, as implicações geopolíticas da fusão dos gelos no Ártico, a segurança marítima, a Economia Azul para além das pescas e dos minerais e o futuro dos oceanos.
Em entrevista ao Expresso, o Enviado Especial para o Oceano da ONU reconhece que “o aspeto mais positivo da pandemia tem sido a confrontação da Humanidade com a realidade de tratar a Natureza tão mal como tem vindo a fazer”.
Antes do Covid-19, a acidificação dos oceanos continuava a ameaçar o ambiente marinho e os serviços de ecossistemas. Com a pandemia, tem havido uma redução drástica da atividade humana. Poderá ser uma oportunidade especial para os oceanos recuperarem?
Podemos ganhar coragem com o que a pandemia nos tem mostrado, para fazermos uma mudança no comportamento humano. Nesse sentido é de facto uma oportunidade especial, mas em termos reais muito mais tem de mudar para invertermos a tendência de acidificação dos oceanos. A acidificação é principalmente causada pelo dióxido de carbono da atmosfera a dissolver-se no oceano. Isto leva a uma diminuição do pH da água, tornando o oceano mais ácido e as condições cada vez mais difíceis para as formas de vidas marinhas baseadas no carbonato de cálcio, como os crustáceos e os corais.
A desflorestação e a queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás para a indústria, são as principais causas desta acidificação. Assim, para o bem da vida debaixo das ondas, a próxima Cimeira do Clima da ONU (COP26) em novembro em Glasgow (Escócia) deve dar provas de um movimento “sísmico” global para longe dos combustíveis fósseis. E que assuma grandes compromissos para com novos padrões de produção e consumo.
E a pandemia pode também ser uma oportunidade especial para aumentar a biodiversidade marinha coberta por áreas protegidas, bem como a contribuição das pescas sustentáveis para o PIB mundial?
Gostaria de ser mais positivo em relação a esta questão, porque diz diretamente respeito aos pontos do 14º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU quanto às Áreas Marinhas Protegidas (AMP) e às Pescas Sustentáveis, mas exige mais do que uma restrição pandémica. Com efeito, o estabelecimento de mais AMP e a sua governação efetiva exigem um aumento da vontade política em todo o mundo, tal como a eliminação da sobrepesca, da pesca ilegal e das práticas prejudiciais do setor. O aspeto mais positivo da pandemia sobre eles tem sido a confrontação da Humanidade com a realidade de tratar a Natureza tão mal como tem vindo a fazer. A pergunta para todos é: para onde vamos a partir daqui? A Cimeira do Clima em Glasgow será uma grande parte da resposta.
Como Enviado Especial da ONU para o Oceano desde 2017, trabalha com a sociedade civil, a comunidade científica, o sector privado e os governos. Quais são as principais dificuldades que encontra com estes parceiros para concretizar o 14º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (SDG14), isto é, conservar e utilizar de forma sustentável os oceanos, mares e recursos marinhos?
Como diz o ditado, ninguém disse que ia ser fácil, mas com as intenções corretas e todos a apostarem no mesmo objetivo, acreditamos que chegaremos onde necessitamos de estar: num mundo de emissões líquidas zero em 2050. Não há dúvida de que não será possível chegar lá sem que todos os sectores da sociedade estejam envolvidos no processo. A sua pergunta já cobriu a maior parte dos sectores relevantes, mas eu adicionaria ainda as organizações filantrópicas, as cidades e os indivíduos, todos eles com um papel essencial a desempenhar no grande desafio existencial do século XXI.
A Conferência dos Oceanos da ONU em Lisboa sobre o tema "Salvar o nosso Oceano, proteger o nosso Futuro", foi adiada para 2022 devido à pandemia, mas as Nações Unidas querem organizar um evento de alto nível no próximo verão, em conjunto com Portugal e o Quénia. Quais são os principais objetivos deste evento?
A reunião de alto nível a que se refere está a ser organizada pelo presidente da Assembleia Geral da ONU, Volkan Bozkir, apoiado por Portugal, o Quénia e eu próprio, e será realizada em Nova Iorque a 1 de junho deste ano. Os principais objetivos da reunião são essencialmente informar os Estados-Membros e a comunidade em geral sobre o progresso da concretização do SDG14, e em segundo lugar manter o impulso para a Conferência dos Oceanos das Nações Unidas em Lisboa no próximo ano.
Em dezembro de 2020, na sua comunicação sobre o Estado do Planeta na Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, o secretário-geral da ONU, António Guterres, deu uma atenção especial às grandes ameaças que pairam sobre os recifes de corais. Porquê?
Porque a situação difícil em que se encontram os oceanos pode ser bem resumida através dos corais. O relatório especial do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da ONU (IPCC) sobre os impactos do aquecimento global de 1,5 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais, afirma com grande confiança que 99% dos recifes de corais vão-se perder se o aquecimento ultrapassar o nível crítico de 2 graus Celsius. Ora os recifes de corais são o lar de 30% da vida marinha, são os “bunkers” da biodiversidade marinha, e é um eufemismo dizer que a sua perda terá consequências importantes para a saúde do oceano. É muito mais do que isso, porque não podemos ter um planeta saudável sem um oceano saudável.