A pandemia tem destas coisas. Numa época em que deveriam estrear-se filmes para toda a família e, já, os primeiros a alinhar-se para os Óscares, vemos chegar às salas uma reposição de “Crash”, do canadiano David Cronenberg, na próxima quinta-feira, em cópia proveniente de restauro supervisionado pelo próprio realizador que devolveu à obra todos os brilhos, todos os reflexos metálicos, todos os espessos vermelhos-sangue, agora em resolução 4K. Foi mostrada pela primeira vez no Festival de Veneza de 2019, um ano depois de Cronenberg ter recebido um Leão de Ouro à Carreira. Lembremos, entretanto, que, no próximo mês de maio, se cumprem 25 anos sobre a estreia mundial do filme — polémica, agitada — no Festival de Cannes. Saiu de lá, em 1996, com o Prémio Especial do Júri, pelo qual muito se bateu, diz-se, o jurado Atom Egoyan (o outro canadiano ‘desviante’...) contra o próprio presidente, Francis Ford Coppola, que não lhe encontrava mérito seguro.
Na Europa estreou nos meses seguintes, a Portugal chegou em outubro, nós, no Expresso, recebemo-lo em aclamação, com um dossiê na Revista e cinco-estrelas-cinco de unanimidade crítica dos que, então, aqui oficiavam: António Cabrita, João Lopes, Manuel Cintra Ferreira, além do autor destas linhas. Unanimidade que, internacionalmente, não era regra, além dos pruridos autoritários que se alevantaram. No Reino Unido, por exemplo, uma cena de sexo com uma mulher deficiente motora e supinamente provocante (Rosanna Arquette, magnífica), gota de água num filme que figurava fetiches que o cinema nunca ousara, fez espertar uma onda pública de contestação, quando o filme passou no Festival de Londres, com os tabloides aos gritos e figuras da administração nacional a exigirem cortes de censura e banimentos para a estreia nas salas. Cortes não houve, mas interdições locais ocorreram — e o filme só estaria nos cinemas em junho; já, então, “Crash” se estreara nos Estados Unidos (em março) após uma longa espera para acalmar os receios de Ted Turner, detentor dos direitos, sobre um possível ‘contágio’ dos espectadores que poderiam, sob influência do filme, começar a fazer sexo dentro de carros a alta velocidade ou a provocar acidentes a fim de erotizar as suas vidas...