Sociedade

Quem quer acabar com a brincadeira dos miúdos?

02-02-2020

Bem-vindos à era dos pequenos prisioneiros, das crianças que não brincam atulhadas de deveres, que em Portugal passam a vida na escola, em casa ou no carro, a preparar-se para um futuro que não tem em conta o seu presente

Este texto não deveria existir. Se existe, é porque qualquer coisa está a correr muito mal neste mundo, pelo menos na parcela de mundo que nos cabe habitar. Não deveríamos escrever artigos sobre a importância de um ser vivo fazer aquilo que está programado geneticamente para fazer, nem ter de justificar o declínio da única atividade que lhe está intrinsecamente associada e que o define, ao ponto de, sem ela, deixar de ser o que é. Numa palavra, qualquer tentativa de explicar porque é que uma criança não brinca passa por uma contradição tão absurda que nos arrancaria um sorriso se não fosse um assunto muito — muito — sério.

Mas as crianças de hoje brincam pouco e deixam de brincar cedo demais. Isso já não é preponderante numa infância escolarizada até ao tutano e atulhada de compromissos estruturados pelos adultos, sujeita a trabalhos de casa diários e repetitivos, com pais que, absorvidos pelos empregos e pelo cansaço, as deixam entregues à tríade TV—tablet—smartphone antes de deitar e, de manhã, começar tudo de novo. Apenas 25% das crianças portuguesas brincam as três horas diárias que a Organização Mundial da Saúde recomenda nas diretrizes divulgadas em abril do ano passado. E 54% das crianças utilizam uma dessas horas para jogar com dispositivos tecnológicos, em 24% dos casos videojogos. 70% têm menos de uma hora por dia de brincadeira ao ar livre, metade do tempo defendido pelo Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos para garantir o bem-estar dos detidos nas prisões. Só 2% dos miúdos até aos 10 anos, porém, transportam o jogo para a rua, e as cidades calaram-se das suas vozes — ou calámo-las nós, os adultos. Não deveríamos brincar com isto.

Este é um artigo exclusivo. Se é assinante clique AQUI para continuar a ler. Para aceder a todos os conteúdos exclusivos do site do Expresso também pode usar o código que está na capa da revista E do Expresso.

Caso ainda não seja assinante, veja aqui as opções e os preços. Assim terá acesso a todos os nossos artigos.

Para continuar a ler este artigo clique