Depois da tempestade, começam a ver-se sinais da bonança e Marques Mendes começou o seu habitual espaço de comentário do Jornal da Noite da SIC a destacar as boas notícias trazidas pelos números da pandemia em Portugal. "O confinamento está a resultar", expressou, numa altura em que o número de infetados tem descido de forma significativa. Falta ainda baixar o número de doentes internados e de utentes em unidades de cuidados intensivos, mas não é apenas isso que está em falta.
Segundo o analista político, é tempo de o governo começar a preparar o possível desconfinamento, à semelhança do que outros países já têm feito e num período em que já se sentem os problemas sociais provocados pelo fecho parcial da economia. "Quando começamos a desconfinar?" é a grande pergunta na cabeça de muitos, mesmo que "até meados de março seja impossível" por termos mais três semanas de confinamento pela frente. Para Marques Mendes, "o governo tem de explicar", mas também na comunicação voltam os erros.
É que se "na quarta-feira Mariana Vieira da Silva, a ministra, disse que ainda não é tempo de falar de desconfinamento", no sábado optou por falar de desconfinamento com a Juventude Socialista — anunciando que este desconfinamento "tem de começar pelas escolas". Marques Mendes concorda que a educação é prioritária, mas que há outra prioridade que está a ser deixada de lado. É a testagem e o ratreio.
O governo prometeu reforçar o número de testes e "a DGS até falou em 100 mil testes diários", mas os números apresentados nos famosos gráficos do comentador mostram outra realidade. O número de testes é baixo e "estamos a ter, apenas, 31 mil testes por dia", quando o número era duas vezes maior há duas semanas.
Já a vacinação, que muitos têm considerado problemática, está "ao nível dos demais países da UE". Sobre a possibilidade de se usarem vacinas de origem chinesa ou russa, Marques Mendes decidiu informar-se em Bruxelas e tem novidades: a vacina da China nem chegou a ser equacionada e a da Rússia tem também hipóteses nulas. Em causa estarão problemas políticos após a visita de Borrel a Moscovo que deitaram por terra essa opção.
APOIOS SOCIAIS E A APOSTA NA BAZUCA VITAMÍNICA
É a "pandemia económica e social" de que Marques Mendes fala, destacando "as boas decisões, as más e as preocupações para o futuro". Começando pelas boas notícias, o analista político dá palco ao pagamento aos pais que acompanham os filhos em casa, seguindo pelos problemas na educação especial (apoio a crianças e jovens com problemas de aprendizagem). No que diz respeito ao amanhã, destaque para os problemas de planeamento relacionados com as moratórias —"O que está a ser feito para evitar problemas quando acabarem as moratórias, em setembro?", questiona —, o turismo ("O que é que está a ser pensado para recuperar a imagem do país em termos internacionais?") e as empresas, que estão altamente endividadas e vão precisar de ser recapitalizadas.
E neste ponto é a bazuca europeia, e as opções do governo, que preocupam Marques Mendes. Para o comentador há falta de rasgo nas escolhas nacionais, que contam com 13,9 mil milhões de euros a fundo perdido a dividir pelo Pilar de Resiliência (8,5 mil milhões de euros) , para o setor social, produtivo e da competitividade e coesão, pelo Pilar da transição climática (2,8 mil milhões de euros) e pelo Pilar da transição digital (2,5 mil milhões de euros) — com investimento na Escola digital, nas Empresas 4.0 e na modernização da Administração Pública.
São "três grandes problemas" num plano que é "bem-vindo": tem falta de ambição (coloca-nos a crescer ao nível da UE quando nos devia comparar com os nossos competidores diretos, a leste), apresenta uma visão centrada no Estado — quando são as empresas a criar riqueza — e não aproveita os empréstimos que a UE põe à disposição do país. A dívida pública muito alta, que o Governo tem medo de agravar, é apontada como razão para o não endividamento. "E os erros pagam-se caro."
AUTÁRQUICAS AO VIRAR DA ESQUINA
Podem ainda faltar vários meses para outubro mas "as eleições autárquicas começam a mexer e vão mexer ainda mais", considera Marques Mendes — que aproveita para analisar os riscos e oportunidades desta ida às urnas. O PCP corre o risco de voltar a descer ("pede de eleição em eleição desde que há geringonça") e PS pode mimetizar uma situação-pântano como a de Guterres há duas décadas, pelo que esta é uma oportunidade para o PSD, que "teve há quatro anos o seu pior resultado autárquico de sempre" pelo que "fazer pior agora é impossível". Ainda relacionado com esse ponto, o analista político considera um erro que Rui Rio encete uma polémica com Rui Moreira (em entrevistas à Rádio Observador e ao Porto Canal), quando a sua disputa devia ser com António Costa.
AS POLÉMICAS DO PRESIDENTE DO CONSTITUCIONAL
Já no final do seu espaço de comentário semanal, Marques Mendes considerou que "é uma polémica sem sentido" a que envolve o novo presidente do Tribunal Constitucional. "Goste-se ou não se goste das ideias, do estilo e da linguagem de João Caupers, ele tem direito a ter aquelas ideias, aquele estilo e aquela linguagem", disse sobre o homem que também é conselheiro de Estado.
O comentador acha lamentável que se peça a Caupers que se retrate por declarações feitas há 11 anos, que se demita ou que vá explicar-se à Assembleia da República. "Retratar-se de quê? Demitir-se porquê? Ir ao Parlamento? Então os Senhores Deputados não sabem que os Tribunais são independentes? Não sabem que um Tribunal não é uma Direcção-Geral ou uma empresa pública?" Para Marques Mendes, acaba por não ser Marques Mendes a ficar mal na fotografia.