Marcelo Rebelo de Sousa, antigo comentador político entretanto despromovido às funções de Presidente da República, não conseguiu igualar os 70% de Mário Soares na reeleição de 1991. Dizem os conhecedores da mente complexa do Presidente que esse era o seu objetivo principal, suplantar a fasquia do popularíssimo Soares graças aos votos dos incondicionais do centro-direita, à gratidão dos socialistas pelos extraordinários serviços prestados ao Governo de António Costa durante o seu primeiro mandato e a uma grande parte do eleitorado que queria, acima de tudo, evitar a tortura de uma segunda volta. O Presidente alcançou um resultado superior, em termos absolutos e relativos, ao da primeira eleição, mas uma franja heterogénea de descontentes impediu a concretização do seu sonho percentual. Mesmo ganhando em todos os concelhos do país, o que nenhum outro presidente conseguiu, os 70% continuarão como o máximo das presidenciais democráticas em Portugal, se descontarmos os 91% com que Sidónio Pais, então Presidente em exercício, foi eleito a 28 de abril de 1918.
As más-línguas dirão que a democracia da I República era um tanto imperfeita e que o golpe militar de 1917 a suspendera, que aquelas que foram as primeiras eleições presidenciais por sufrágio direto se realizaram em simultâneo com as legislativas às quais só concorreu o Partido Nacional Republicano, de Sidónio, que este era o único candidato à Presidência da República e que os processos eleitorais decorreram perante uma indiferença generalizada. O que é que se pode dizer? Há pessoas que nunca estão satisfeitas. O que interessa é que 91% são 91% aqui ou na Coreia do Norte (está bem, o único lugar do mundo em que 91% não é um resultado “norte-coreano” é na Coreia do Norte). E o melhor é não deslocarmos a comparação para o campeonato mais subjetivo da popularidade porque aí Sidónio Pais triunfa com várias voltas de avanço.
Os 91% não fazem justiça à veneração do povo por Sidónio, ao verdadeiro culto popular em torno da figura do “Presidente-Rei”, isto numa altura em que os meios de comunicação tinham um alcance muito inferior ao de hoje e não havia selfies. Quando, no dia das eleições, exerceu o direito de voto foi “afetuosamente” saudado pelo povo à chegada e à saída. Ao promover a reaproximação entre Portugal e o Vaticano, Sidónio tornara-se um ídolo do Portugal profundo que achava ligeiramente excessivo o anticlericalismo feroz dos primeiros tempos da República. Depois disso, onde quer que fosse, impecável com o seu traje militar, era recebido por multidões em êxtase. Apesar de ser um respeitável pai de família, diz-se que colecionou vários casos extraconjugais que não beliscavam a sua aura de homem providencial, muito pelo contrário. Mas tanta idolatria teria de gerar muito ódio. A 14 de dezembro, Sidónio Pais foi morto a tiro na Estação do Rossio por um republicano mais exaltado. O que é que se pode dizer? Há pessoas que nunca estão satisfeitas.
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