Maria de Belém recusa entregar os pontos a Marcelo Rebelo de Sousa, que as sondagens dizem levar vantagem para a corrida presidencial de janeiro. “Numa república democrática não há coroação nem nomeação; há eleição e eu candidato-me a esta eleição para disputar a vitória”, garantiu a agora candidata, no discurso de 25 minutos em que oficializou a decisão que já tinha tomado (e pré-anunciado) no verão.
A ouvi-la muitos socialistas - Almeida Santos, Manuel Alegre, Vera Jardim, Alberto Martins, Vitalino Canas, entre outros -, mas também os padres Vítor Melícias e Feytor Pinto, a jornalista Maria Elisa, o médico Joshua Ruah, o reitor da Universidade Nova, António Rendas. Francisco Assis, que era esperado, acabou por não aparecer.
Foi uma decisão “profundamente amadurecida”, disse Maria de Belém, 66 anos, invocando um “balanço de quarenta anos de vida pública” que lhe deu o impulso de que precisava para avançar, com “total independência do momento político e das agendas partidárias”. É esta “afirmação de autonomia política que testa a credibilidade e a isenção de uma candidatura presidencial”, numa nova indireta, desta vez a outro adversário, António Sampaio da Nóvoa, que a acusou de ter prejudicado a campanha do PS para as legislativas. E rematou: “O programa do Presidente é a Constituição”. E ainda uma mensagem que se pode interpretar como sendo dirigida ao atual Presidente, Cavaco Silva: “A constituição não comete ao Presidente a execução de um programa de governo”.
“Portugal precisa de um Presidente independente, capaz de interpretar a vontade do povo e dar voz às pessoas mais frágeis”, disse ainda, antes de traçar um retrato cinzento do país: “uma população descrente e confrontada com o avanço impiedoso das desigualdades, que agravaram as condições de vida da maior parte das famílias; vejo como ao longo destes anos a pobreza alastrou, as oportunidades de trabalho reduziram, a geração de jovens é de novo forçada a emigrar na esperança encontrar lá fora o que o país não proporciona”.