Editorial

Quem fala pela Europa?

17-11-2010

Os avanços e recuos dos discursos europeus sobre a dívida, longe de tranquilizar os mercados apenas trazem imprevisibilidade. Não é possível continuar neste caminho.

Os países periféricos da zona euro, como na eufemística do politicamente correto são tratados os PIGS, acrónimo de Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha, têm sofrido bastante com falta de clareza do discurso europeu. Não se trata de desculpar os respetivos governos nacionais pelo modo como conduziram as suas próprias economias, nem de fazer esquecer que alguns deles tinham a obrigação de saber que o caminho que levavam era insustentável.

Mas quando a Grécia entrou em default a Alemanha assustou-se com o impacto que tal poderia ter na sua economia. Assim, tarde e a más horas, mas de forma efetiva e em parceria com o FMI, a Europa interveio. De então para cá, os alemães dedicaram-se a proteger o seu sistema de eventuais contaminações externas. Por último, a chanceler Merkel passou a inventar um sistema em que os credores dos países periféricos seriam penalizados caso estes entrassem em incumprimento. Obviamente, o que conseguiu foi aumentar as taxas de juro das dívidas soberanas desses países e dar mais uma facada nas suas respetivas economias. Foi assim que, em Portugal, se chegou a atingir os 7,5% no mercado secundário e os 6,85% no mercado primário, ou seja, na emissão de dívida pública na passada quarta-feira.

Esta semana, durante a cimeira do G-20, emendou-se a mão, dizendo que essa penalização dos credores será apenas para empréstimos futuros. Menos mal, os juros desceram um pouco, mas o risco mantém-se alto.

A senhora Merkel deve entender que, quando fala, se tem de contentar o eleitorado alemão também tem de defender a moeda comum. O que tem andado a fazer é altamente prejudicial a países como a Irlanda, Portugal ou Espanha. Ora, se temos uma moeda comum, a responsabilidade da sua defesa deve ser partilhada, a começar, como é óbvio, pela chanceler alemã. Alguém com conhecimento da História e boas noções de finanças deveria explicar à líder do Governo de Berlim (que pela primeira vez é proveniente da ex-RDA) que há coisas com que na Europa não se deve brincar e que um estouro das economias periféricas será exponencialmente mais grave do que o estouro da Lehman Brothers em 2008.

O caso de Eder Fortes

O programa "Condenados", da autoria da jornalista Sofia Pinto Coelho, mostrou esta semana um caso estranho. O caso de Eder Fortes, condenado a quatro anos e meio de prisão por ter roubado um telemóvel. Quem seguiu com atenção a reportagem verifica algo terrível: primeiro, que Eder provavelmente não roubou nada; segundo, que Eder foi reconhecido como autor do crime de forma tosca e ilegal; terceiro que o julgamento foi enviesado e racista. Se há Justiça neste país, o caso Eder Fortes tem de ser reavaliado.

Texto publicado na edição do Expresso de 13 de novembro de 2010