Caro dr. Passos, caro dr. Portas, venho por este meio informá-los de que não votarei nem no PSD nem no CDS. Eu só colocarei a minha lunática cruzinha no quadrado da AD. Sim, eu bem sei que a AD é uma espécie de unicórnio lendário, perfeito mas impossível, belo mas inconcebível. Porém, se não se importam, eu vou explicar por que razão a AD não pode ser um unicórnio intangível. A AD, meus caros, é uma necessidade.

A nossa sociedade está dominada por uma inércia irritante repetida ad nauseam por diversas brigadas do reumático: "As mudanças só podem vir de fora", dizem. Ora, com a vossa devida licença, eu não aceito isto. Portugal tem de ser capaz de se comportar como um homenzinho. Portugal tem de ser capaz de gerar um movimento interno de regeneração. É a coisa do "we shall overcome", meus caros. Eu acredito que esse movimento é possível. E acredito que esse movimento de mudança só pode nascer da AD que V. Exas. podem e devem fazer. Só uma AD pode vencer o reaccionarismo do PS e o radicalismo lunático do PCP e do PCP-caviar. Ou seja, a AD é a única forma de expulsarmos o sentimento embaraçoso que se instalou entre nós. Que sentimento embaraçoso? É aquele alívio que sentimos quando percebemos que Merkel manda mais do que Sócrates. É aquele respirar fundo que aparece quando vemos o FMI e a UE a tomarem conta deste barraco ingovernável. Meus caros, é triste ver uma nação chegar a este grau de desistência. Se a sociedade portuguesa não for capaz de criar um movimento interno de mudança, então mais vale arrear a bandeira e pendurar as chaves da soberania. Caro Paulo, caro Pedro, ou ressuscitamos o unicórnio perdido na noite de Camarate, ou assumimos o estatuto de nação inimputável.

E, atenção, essa AD tem de aparecer antes das eleições. Antes. Antes. Antes. O cavaquismo, o guterrismo e o cavaquismo 2.0 (i.e., o socratismo) criaram um statu quo insustentável. As reformas necessárias implicam que se fale com realismo antes das eleições. Antes. Antes. Antes. Porque essa é a única forma de adquirir a legitimidade necessária para reformar o país. As coisas-duras-que-têm-de-ser-feitas-devem-ser-anunciadas-antes-das-eleições. 'Mas assim podemos perder as eleições, caro Henrique', dizem V. Exas. com o habitual cálculo tático dos indígenas. Pois podem. Mas, se não se importam, eu quero falar de estratégia política e não de tática politiqueira. E, por isso, pergunto: V. Exas. querem 'vencer eleições' ou querem 'chegar ao poder'? É que 'ganhar eleições' não é o mesmo que 'conquistar o poder'. Com um discurso oco, com um populismo eleitoralista, V. Exas. até poderão vencer as eleições, mas nunca alcançarão o poder. Esse poder conquista-se antes das eleições, através de um discurso que parta do realismo e não do otimismo lambão do cavaquismo 2.0. Esse poder conquista-se através de uma atitude séria. Por favor, deixem a conversa eleitoralista e as ilusões reacionárias para o PS.

Meus caros, se concorrerem em listas separadas os vossos partidos vão ceder à tentação do eleitoralismo e vão perder a coragem para manter o discurso realista, o único que permite a reforma do país, o único que vos pode garantir um efetivo e redentor poder. Poder, meus amigos, poder. E 'poder' não é o mesmo que 'estar no governo'. De uma maneira ou de outra, V. Exas. vão voltar ao governo. Resta saber se querem chegar ao poder pela primeira vez.

henrique.raposo79

Texto publicado na edição do Expresso de 25 de setembro de 2010