Opinião

Convicções

Assim como os comunicados breves não significam ocultação de factos, nem os títulos agressivos traduzem ataques pessoais, estou convicta de que seremos capazes de mais e melhor

Falar de convicções implica a determinação da procura. É o que tem acontecido desde que a expressão «abuso sexual de menores» se cruzou com a vida da Igreja Católica. Ao abuso, acrescentou-se a dimensão do encobrimento por parte de membros da hierarquia da Igreja, isto é, perante a denúncia ou mesmo a suspeita, ocorreu o encobrimento que perpetuou no tempo o drama de uma violação física, de uma relação prepotente, de um crime. É verdade que a noção de crime e a sua penalização têm sofrido uma evolução que nos gratifica enquanto humanidade. E que exige chegar à efetivação de uma tolerância zero e transparência total, em tudo o que diga respeito à proteção de menores e pessoas vulneráveis em contexto de Igreja.

Foi este o caminho iniciado por Bento XVI e convictamente exigido pelo Papa Francisco. É este o caminho que está a ser percorrido pela Igreja Portuguesa. Com naturais dificuldades. Mas a verdade é que a Igreja Católica respondeu ao Papa e, em Portugal, a primeira Comissão de Proteção de Menores foi constituída no Patriarcado de Lisboa, em abril de 2019 sendo que, ao dia de hoje, todas as Dioceses têm as suas Comissões em funcionamento, de forma autónoma, mas coordenada, discreta, mas cumpridora das regras estabelecidas. Desde então, diversas estruturas da Igreja Católica trabalharam na elaboração e implementação de manuais de procedimentos para fazer frente a situações de possíveis abusos. A título de exemplo, falamos da Companhia de Jesus, dos Maristas ou do Corpo Nacional de Escutas.

Seria imprudente pensar que assim se resolvem os problemas. Porque a natureza humana não se controla no exercício da autoridade, muito menos na liberdade implícita da proposta de vida da Igreja Católica a todos os crentes, estejamos a falar de leigos ou sacerdotes. A que devemos acrescentar o facto de que, à responsabilidade acrescida da ordenação de um padre, não se soma a certeza inabalável da retidão de vida. Mas o esforço existe e a criação de uma Comissão Independente a que se junta o Grupo de Investigação Histórica para o estudo dos Arquivos das Dioceses são sinais evidentes de uma decisão que deve merecer respeito por parte de toda a sociedade que durante décadas, pactuou num silêncio consentido sobre este crime.

À tolerância zero aos abusos e aos encobrimentos, acrescenta-se a questão da transparência e, também aqui se joga de uma forma séria, o esforço que a Igreja tem feito para corresponder ao que ela própria se propõe, a sociedade lhe pede e a comunicação social lhe exige. Esforço esse que tarda em conseguir os resultados desejados. Mas assim como os comunicados breves não significam ocultação de factos, nem os títulos agressivos traduzem ataques pessoais, estou convicta de que seremos capazes de mais e melhor. Não existem alternativas, não se querem outros caminhos. Pôr em causa esta determinação é colocar-se num patamar de superioridade moral que a todos nos deve incomodar.