Opinião

Ciência Aberta: a mudança de paradigma

Os resultados dependem do esforço de cada pessoa e de um compromisso comum. A mudança de paradigma decorrente da Ciência Aberta é uma missão tão difícil quanto ambiciosa, mas estão a ser dados passos seguros para a sua concretização, considera Delfim Leão, vice-reitor para a Cultura e Ciência Aberta da Universidade de Coimbra

26-10-2021

1. Mudam-se os tempos

Como uma tremenda pedrada no charco, rapidamente correu mundo a notícia da Nature dando conta da decisão da Universidade de Utrecht de abandonar o ‘fator de impacto’ (impact factor) como critério para proceder a contratações de académicos e de pessoal técnico. A razão para isso reside num dado objetivo, que tem vindo a ser crescentemente exposto por múltiplos estudos: o fator de impacto não espelha a real qualidade inerente a determinada investigação ou produção académica, sendo antes um efeito (e também causa) de interesses comerciais que se desenvolveram à volta de um poderoso oligopólio de editoras internacionais, que leva a que artigos publicados em revistas muito citadas contem mais do que artigos publicados em revistas que não têm a mesma capacidade de projeção.

Este diagnóstico não é novo, como não o são os apelos à necessidade de fazer alguma coisa para alterar uma situação que manieta instituições, recursos humanos, financeiros e científicos. A novidade reside na coragem de assumir programaticamente que esses indicadores vão ser substituídos por outros, de espectro mais alargado, entre os quais avulta o compromisso com a Ciência Aberta. Uma decisão destas não terá por certo sido tomada de ânimo leve, pois pode ter efeitos diretos, por exemplo, sobre a avaliação de unidades de investigação e sobre os ‘rankings’ das instituições universitárias, com consequências igualmente diretas sobre a capacidade de obterem financiamento e de atraírem estudantes. Por conseguinte, se uma universidade de um meio cientificamente tão maduro como o da instituição em apreço toma esta decisão, com os riscos que comporta, há razões de peso para crer que estamos de facto perante sinais palpáveis de uma mudança em curso, sendo igualmente bem provável que a Universidade de Utrecht seja acompanhada, de forma crescente, nessa decisão pioneira.

2. Muda-se o paradigma

Ao longo de um intenso período de discussão de ideias e harmonização de perspetivas, que em boa parte coincidiu com a própria experiência mundial da pandemia, a UNESCO promoveu um ambicioso processo de construção coletiva de uma Recomendação para a Ciência Aberta, recentemente aferida pelo contributo de representantes dos seus 193 Estados membros, encontrando-se a poucas semanas de ser formalmente lançada, na 41ª sessão da Conferência Geral da UNESCO, a realizar entre 9 e 24 de novembro. A natureza altamente participativa deste movimento e a sua transversalidade mundial ilustram, de forma clara, que a construção de um tão amplo consenso sobre esta matéria chegou a um ponto de não retorno na valorização da Ciência como Bem Comum. Dela decorre o princípio axial de tornar a Ciência tão aberta quanto possível, mantendo fechado apenas o que for absolutamente necessário (“as open as possible, and closed only as necessary”, na sua formulação em inglês). A primeira oportunidade para pôr à prova este princípio capital surgiu com o próprio contexto pandémico em que temos vivido: não teria sido possível encontrar tão rapidamente vacinas para a COVID-19 se não tivessem sido partilhados massivamente dados e estudos científicos, bem como recursos financeiros para os potenciar. A discussão à volta das patentes mostra, igualmente, que há ainda um longo caminho a percorrer, mas a mudança de paradigma está seguramente em marcha.

3. Congregam-se as vontades

Os resultados dependem do esforço de cada pessoa e de um compromisso comum. A Universidade de Coimbra orgulha-se de fazer parte do núcleo central de um desses espaços de congregação de vontades a nível comunitário, o consórcio OPERAS, que tem por objetivo coordenar e federar recursos na Europa para responder eficazmente às necessidades de comunicação académica dos investigadores na área das Humanidades e Ciências Sociais. O OPERAS foi recentemente selecionado pelo European Strategy Forum on Research Infrastructures (ESFRI) como uma das 11 novas infraestruturas digitais com elevado potencial para marcar a evolução da ciência nos próximos 10-20 anos (parte do Roteiro ESFRI 2021), em particular pelo seu compromisso com uma das prioridades programáticas da União Europeia (a Transição Digital). Do trabalho do OPERAS já se veem frutos palpáveis, em especial através do seu projeto TRIPLE, que acaba de lançar a versão beta da plataforma digital GoTriple (www.gotriple.eu), um espaço multidisciplinar e multilingue de partilha de conhecimentos, direcionado para as Humanidades e Ciências Sociais e Humanidades.

A mudança de paradigma decorrente da Ciência Aberta é uma missão tão difícil quanto ambiciosa, mas estão a ser dados passos seguros para a sua concretização.