Opinião

As Causas. Tudo é confuso, tudo é evidente

É claro o que parece confuso: por razões diferentes, o PS e o PCP preferem eleições antecipadas

As épocas que aparentam ser de fim de ciclo, em qualquer setor ou atividade, lembram naufrágios em que os mais afoitos ou com mais sorte se conseguem agarrar a uma tábua.

Podem sobreviver ou não, mas o que fazem e como fazem parece sempre ser muito confuso.

Hoje vamos exemplificar isto com a crise político-orçamental, com a COP26 (Conferência para a Mudança Climática) e a luta pela descarbonização do planeta e com mais exemplos de estatismo.

ORÇAMENTO: NADA É O QUE PARECE?

Finalmente, é claro o que parece confuso: por razões diferentes, o PS e o PCP preferem eleições antecipadas.

O PS, porque o otimismo de António Costa, a fragilidade da sua Esquerda que foi esmagada nas autárquicas, a confusão nas Direitas, tudo isso lhe permite voltar ao plano inicial que eu antecipara há muitos meses contra a opinião dominante: conseguir eleições culpando outros, ganhá-las se calhar com maioria absoluta, e calmamente preparar a sua sucessão para daqui a 2 ou 3 anos.

O PCP, porque entre o risco de suicídio digno e a certeza da morte lenta, sentiu na sua velhice um fulgor revolucionário juvenil e quer voltar à oposição pura e dura. E se a Direita ganhar, se calhar, acham melhor. O PCP talvez morra na mesma, “mas de pé, como as árvores” …

Marcelo avisou, avisou, ganhou crédito a cobrar se tudo correr mal, mas o mais provável é que tenha de se resignar a viver com Costa durante todo o seu segundo mandato e, talvez por isso, já pragmaticamente se colou mais ao atual Governo. Afinal, ficar na História apenas pelos selfies e beijinhos não é assim tão horrível…

O PSD e o CDS não queriam a crise, não ganham nada com ela, mas agora as eleições no PSD podem ser clarificadoras: Rui Rio tem a oportunidade de se candidatar para fazer o bloco central, que eu propusera em março de 2020, tão óbvio seria como solução, e de que ninguém quis falar. Ou Rangel a aliança com CDS e IL em alternativa clara ao PS. E os militantes que digam o que preferem.

O BE, esses, parece um partido de baratas tontas. Tiveram 5 anos para se moderarem, e preferiram ser marginais e radicais. E cometeram o erro de menosprezar António Costa, de não perceberem que ele conseguiu não vir a ser culpado pela crise e que mais cedo ou mais tarde o gigante, anos a fio ameaçado e humilhado por um anão, acaba por lhe dar uma sapatada.

O INVERNO ESTÁ A CHEGAR…

Quem manda no Mundo vai reunir-se em Glasgow, a partir do próximo domingo, na COP 26, com uma agenda ambiciosa.

Os poderosos estão influenciados pela necessidade de responder a pressões da opinião pública, a factos já incontroversos e a credíveis modelos matemáticos que anunciam uma tragédia de dimensão cósmica se até 2050 não acabar completamente a energia originada em combustíveis fósseis.

Por isso se estabeleceram muito ambiciosos objetivos para 2030 (reduzir 25% os gases com efeito de estufa) e para 2050 (atingir a neutralidade carbónica, ou seja, reduzir 85% a 90% esses gases, deixando de usar carvão, petróleo e gás natural como fonte de produção de energia).

Estudos credíveis dizem que, para isso ser possível, quase 60% das reservas de petróleo e gás e quase 90% das de carvão, hoje conhecidas, terão de ficar intocadas no solo para sempre.

Como venho ensinando há anos, a Energia é acima de tudo uma questão Política. É certo que esta opção política nasce de uma urgente necessidade, mas infelizmente foi sendo estruturada com apelo ao pensamento mágico e infantil, que domina os políticos e os eleitores. O que gera aparente confusão, mas infelizmente é muito claro.

Coisas essenciais não foram ponderadas. Entre elas, que essa opção torna em cada ano cada vez mais inviável económica e financeiramente investir nesses setores de produção de energia, apesar do crescimento económico mundial exigir um aumento substancial da energia disponível e ainda não haver alternativas suficientes ou – como acontece com o nuclear – não se querer que sejam usadas.

Os efeitos desta estratégia já se estão a sentir. Mesmo as empresas que há muitas décadas investem em carvão, petróleo ou gás natural, estão a desinvestir aceleradamente por causa do payback dos investimentos exigir em regra um ciclo de vida produtiva muito longa (que não vai ser viável), pela falta de financiamento e pelos danos reputacionais.

Ora, para atingirmos a neutralidade carbónica em 2050, o “road map” tem de ser como se revela no mapa exibido:

Ou seja, de acordo com o “road map”:

a) Em 2021 deixarem de ser aprovados novos projetos de carvão, oil & gas;

b) Em 2030 o carvão deixar de ser usado nas economias avançadas;

c) Em 2035 ser alcançado o estado de emissões zero nas economias avançadas;

d) Em 2040 acabar a utilização de energia com origem no carvão e no oil & gas;

Agora vamos sair do pensamento mágico do road map e olhar para a realidade atual e para as estimativas:

Vejam como estávamos no Mundo em 2019 (84,3% da energia consumida era de origem fóssil):

E vejam como se antecipa que estaremos em 2030:

Como se pode ver, de acordo com as previsões possíveis, não melhoraremos praticamente nada no mix energético em 10 anos (passamos de 84,3% para 81% na energia fóssil).

E pior, em 2030 a produção de petróleo da OPEC e Rússia vai ser mais dominante no Mundo (passar de 46% para mais de 50%) e ninguém acredita que esses países autocráticos vão respeitar o “road map” e desistir de usar os seus

recursos estratégicos, o que torna tudo ainda mais confuso e complicado.

E em 2050 estima-se que o peso do fóssil no mix seja de 60% quando devia ser menos de 15%, mas – pior ainda - o carvão passará de 27% em 2019 para 42% do total, como se pode ver no gráfico:

Ou seja, para evitar a tragédia cósmica tem de ocorrer uma revolução, que

a) tem de ser paga com os nossos impostos e subida brutal do preço da energia,

b) exige que sejam destruídos amplos setores da economia,

c) que países autocráticos e fortes na produção de energia fóssil desistam dela… e

d) é essencial que nas indústrias condenadas a morrer se continue a assegurar a energia necessária, como fez a orquestra do Titanic durante o naufrágio.

Ora os sinais são muito maus:

a) os investimentos no gás natural – sem o que o carvão continuará a dominar – estão muito abaixo do exigível (como é normal, pois a regra é acabar com o gás natural entre 2035 e 2050…);

b) Está-se a investir em energias limpas menos de metade do que seria necessário para cumprir o “road map”.

Sendo assim, quem se admira com a subida brutal do preço da energia? Quem pode estranhar que desde de maio o preço de uma “cesta” de carvão, petróleo e gás tenha aumentado 95%? Quem duvida que vai ser muito pior?

Perante isso, qual vai ser a reação dos povos? Por enquanto querem energia menos poluente. Mas se os preços e a escassez de energia subirem vão passar a exigir o oposto e os políticos irão de imediato atrás deles.

Alguns exemplos e um aviso:

a) Sem lítio não haverá transição energética, mas populações que são 100% a favor dela, são contra a extração no seu território, como acontece com a Serra de Agra;

b) A BBC teve acesso a leaks na preparação da COP 26 e o governo indiano terá dito que “o carvão vai continuar a ser o principal pilar da produção de energia nas próximas décadas”;

c) A China produz ainda hoje 2/3 da sua eletricidade a partir do carvão, e já anunciou que passa para 2060 a meta de 2050 e que espera ainda assim que depois disso 20% da energia que consuma será de origem fóssil e mesmo isso pode não acontecer pois a regra será “gerir a relação entre a redução da poluição e a redução do carbono e a segurança energética, a segurança da cadeia de abastecimento industrial, a segurança alimentar e a vida quotidiana das pessoas”;

d) A única alternativa de atingir os objetivos – no estado atual e previsível dos conhecimentos, pois o hidrogénio ainda não se sabe se poderá resultar e ainda menos quando e se na dimensão necessária – é uma aposta muito forte na energia nuclear (que aliás está numa fase de inovação, por exemplo com a tecnologia ligada ao tório, no sentido de grande redução dos resíduos radioativos de longa duração), mas a opinião pública é fortemente contra.

Este tema da energia é tão essencial e oportuno que penso voltar a ele – após este aperitivo, talvez assustador – muitas vezes nos próximos meses.

ANTÓNIO CAVACO SILVA COSTA

O reforço do “estatismo” e os sinais de que o PS se e quando for maioritário o vai acelerar, teve mais exemplos.

O primeiro sinal foi o Primeiro-Ministro, simbolicamente na Assembleia da República, usar o pretexto da loucura mansa em que se tornou o concurso do 5G na ANACOM para atacar o modelo de governança por reguladores (que deviam ser) independentes, o que significa desejar passar os seus poderes para o Governo, como está em curso com os poderes reguladores da Ordem dos Advogados.

O segundo sinal é o populista e eleitoralista IVaucher de 10 cêntimos por litro de combustível, em vez de optar poruma redução do ISP, pois a opção do Governo só abrange quem vota e não as empresas que usam veículos na sua atividade.

Finalmente, o sinal revelado quando – chegadas a um ponto que já não aguentavam a prudência e o receio de represálias - as organizações empresariais deram um murro na mesa no Conselho Económico Social (CES).

O motivo direto foi o Governo ter anunciado mudanças à legislação laboral, que não referira na reunião do CES dois dias antes.

António Costa, sem se notar vergonha na sua cara, pediu desculpa por um “lapso e esquecimento”. Mas era ele que presidia à delegação governamental, essas medidas eram as mais chocantes para as empresas, e evidentemente não foram esquecidas, antes se revelaram necessárias para tentar levar o PCP a abster-se na votação do Orçamento.

Mas o que é mais grave é que este desprezo (a mentira patente é sempre um sinal disso em relação a quem dela seja destinatário) indicia que o CES – que tem sido cioso da sua independência e com Francisco de Assis está a ser mais – é tratado como uma “força de bloqueio”, como Cavaco Silva se referia ao Tribunal de Contas, outro empecilho ao estatismo.

O ELOGIO

O casal alemão Buehler-Brockhaus doou ao Museu D. Diogo de Sousa, em Braga, uma excecional coleção de 300 obras da antiguidade clássica mediterrânica que tem nível mundial.

O casal veio viver para Setúbal em 2006 e é uma demonstração viva de que Portugal deve continuar a ter políticas ativas de atração de pessoas com o perfil que define estes mecenas, apesar das dificuldades que visões de curto prazo procuram criar a este tipo de imigrantes.

LER É O MELHOR REMÉDIO

A Fundação Francisco Manuel dos Santos publicou um extenso estudo (o download é gratuito) coordenado pelo Professor Fernando Alexandre, intitulado “Do Made In ao Created in” que pretende apresentar um novo paradigma para a economia portuguesa, que dele tanto precisa para evitar a nossa caminhada para a cauda da Europa.

Ainda não o pude ler, mas a qualidade dos autores, o índice e o resumo que dele fez o Expresso há dias justificam a imediata sugestão de leitura.

A PERGUNTA SEM RESPOSTA

Rui Rio reagiu com violência brutal ao aparente crime de lesa majestade que é alguém querer disputar a liderança do PSD com ele.

Nunca o vi usar de tanta intensidade contra o PS, o Governo ou António Costa.

A pergunta é, pois, dirigida a psicanalistas e psicólogos: algum de vós é capaz de explicar isto? É que a análise política não consegue…

A LOUCURA MANSA

A história é conhecida: as autoridades militares (o Ministro da Defesa afirmou que não fora sequer informado) resolveram proibir que os paraquedistas desfilassem no Dia do Exército a cantar – como é habitual - o seu hino guerreiro e patriótico “ó pátria minha, por ti dou a vida / há sempre alguém que não te quer perdida” e sem boina verde. Foram compreensivelmente vaiados por ex-paraquedistas, pois os que marchavam levavam uma rolha regulamentar na boca.

Isto já é loucura que chegue. Mas, pior ainda, o Chefe de Estado Maior do Exército, a instituição e o Ministro, recusaram a dar qualquer explicação.

E foi Comandante Supremo das Forças Armadas quem, ao sair ou entrar numa porta, assumiu o papel de Diretor de Comunicação das Forças Armadas para dizer que foi por causa da pandemia que se proibiu e que não volta a acontecer no futuro, pois seria grave se voltasse a acontecer, assume-me que mesmo com pandemia.

Está tudo doido?