Opinião

Da espera à esperança, no fim da festa da D. Constança

Paulo Rangel disse em duas frases o que Rui Rio em quatro anos não foi capaz de dizer: “Não aceito que o PSD seja o partido da espera: esperando que o governo de Costa caia de podre. Temos de passar do partido da espera para o partido da boa esperança.” (...) Nas últimas semanas, Marcelo Rebelo de Sousa, qual acelerador de partículas, criou as condições óptimas para que o "da espera à boa esperança" de Rangel tome conta do palco. Já Costa, que tal como a Dona Constança não havia festa nem festança onde com o seu optimismo irritante não marcasse presença, ganhou, de repente, um ar mais sério e preocupado. No país cheira a fim de ciclo

Paulo Rangel disse em duas frases o que Rui Rio em quatro anos não foi capaz de dizer: "Não aceito que o PSD seja o partido da espera: esperando que o governo de Costa caia de podre. Temos de passar do partido da espera para o partido da boa esperança". Justiça a Rui Rio: não foi capaz de o dizer, porque nunca acreditou nisso; porque a sua estratégia foi sempre o seu contrário. Para Rui Rio, o poder cair-lhe-ia no colo: ou por apodrecimento do PS, mais tarde; ou por convite do PS, mais cedo.

Mas em que panorama político foram proferidas estas declarações de Rangel? Quando poucos o esperavam, Marcelo Rebelo de Sousa voltou a ser Marcelo Rebelo de Sousa: um político astuto, capaz de criar, por mote próprio, uma nova realidade política. Como? Criando um facto político que desencadeou uma profunda reconfiguração - em curso acelerado - no panorama político nacional.

Recuemos um pouco. No rescaldo das eleições autárquicas, a oposição à direita do PS reclamou um bom resultado. Alertei, aqui1, no dia imediatamente seguinte, que, com a vitória de Carlos Moedas em Lisboa, havia o risco das direcções dos partidos à direita do PS se aguentarem, mantendo o status quo. E, com este cenário, de forma evidente para todos menos para essas mesmas direcções, termos um prolongamento sine die da crise da direita e um agravamento das condições políticas, sociais e económicas do país.

Arrisco-me a dizer que, se há político no activo que percebeu a crise da direita e que tem sido prejudicado por ela, esse político é Marcelo Rebelo de Sousa. A direita tem-no criticado - e eu também - por, alegadamente em nome da “estabilidade”, levar o PS ao colo. Mas, para ser justo, pergunto: o que é que a direita esperava que Marcelo fizesse? Que abrisse uma crise institucional e precipitasse o país para eleições? Para quê? Para que o PS as vencesse com maioria absoluta, fortalecendo o poder do governo e fragilizando o poder presidencial? Ou acha mesmo, a direita, que as direcções actuais dos seus partidos as venceriam?

Disse que Marcelo é prejudicado pelo actual status quo. Explico melhor: acham mesmo que Marcelo quer ficar na história apenas como o Presidente dos afectos, dócil com um PS suportado na extrema-esquerda, que terminou o segundo mandato com um país mais pobre, e em contínuo empobrecimento, do que quando iniciou o primeiro mandato? Esta pergunta talvez surpreenda os mais novos, que vêem em Marcelo um avô simpático, com quem tiram selfies na praia do peixe, ali na baía de Cascais, mas talvez reavive a memória dos mais velhos, que sabem que Marcelo é, sempre foi, e quer ser lembrado por, politicamente, outra coisa que não apenas isso.

Antes deste cenário de crise, do anúncio da candidatura de Rangel, das suas várias declarações seguintes, e da derrota impressiva de Rio no Conselho Nacional do PSD, com um orçamento mau e um governo péssimo, parecia subsistir, ainda, na sociedade portuguesa a convicção de que a alternativa conseguiria ser pior. Hoje, porém, tudo isso parece estar a mudar. Mais: não necessariamente com o horizonte de 2023, mas desde já. Aliás, o que chegou, nas primeiras leituras, a parecer uma conveniência para Costa, parece agora um problema. E não só para o primeiro-ministro, mas para toda a esquerda, que mergulha numa crise inédita. Primeiro, porque o cimento que a unia - a coligação negativa contra a direita da PàF - perdeu consistência, mas não só.

O PS está profundamente fragmentado, e só o poder do Estado e a figura de António Costa, o vai disfarçando. Convém não esquecer que o PS, nas últimas eleições presidenciais, dispersou o seu apoio por quatro - quatro! - candidatos: João Ferreira, Marisa Matias, Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa. A ala de Pedro Nuno Santos - reforçada com a derrota de Medina em Lisboa - ganha poder, tornando a fronteira com o Bloco de Esquerda bastante ténue, e capitalizando isso a seu favor, mas perdendo com isso o centro, essencial à vitória nas legislativas.

O PCP, por seu turno, não deixou de saber fazer política, mas o inverno - e não só o demográfico - chegou. Eleições, agora, deixariam o PCP numa situação ineditamente frágil do ponto de vista da representação parlamentar, pagando o preço e suportando o ónus de terem criado uma crise política. Narrativa que Costa repetirá, nesse cenário, dia sim dia sim, não só dirigindo-a ao PCP, mas dirigindo-a também ao Bloco. Já viabilizar o orçamento, votando a favor ou abstendo-se, permite ao PCP, com os seus braços "armados" no movimento sindical e associativo, voltar à rua e infernizar a vida do PS nos próximos dois anos. O PCP joga, nestes dias, o dilema do urso e do escorpião: deixar-se abraçar pelo urso PS, ou deixar a sua natureza de escorpião fazer o que sente impulso para fazer?

O Bloco, esse, vive o célebre dilema pequeno-burguês de fachada socialista: manter a sua vocação populista ou dar gás à libido da acomodação aos lugares de poder? O que o Bloco decide, agora, é se quer mesmo pôr fim aos sonhos da ocupação de alguns lugares no aparelho do Estado, e voltar a ser um partido de protesto, eventualmente castigado pelo voto útil. Imagino que, ao preço que está o caviar, não seja uma decisão fácil.

O PPD/PSD, por seu turno, com Rangel - que fez tudo bem até aqui, e disse tudo certo sempre que falou - passa polarizar o voto à direita do PS, assumindo a sua vocação de sempre: ser poder, reformista, modernizador e libertador da sociedade. Com uma vantagem adicional: chuta a bola da crise para o outro lado da barricada.

Com este posicionamento, o de Rangel, o PPD/PSD adia, talvez, o crescimento da Iniciativa Liberal, e deixa para o que está para lá da direita moderada, os votos de quem não for capaz de abandonar a zanga em favor da esperança.

Nas últimas semanas, Marcelo Rebelo de Sousa, qual acelerador de partículas, criou as condições óptimas para que o "da espera à boa esperança" de Rangel tome conta do palco. Já Costa, que tal como a Dona Constança não havia festa nem festança onde com o seu optimismo irritante não marcasse presença, ganhou, de repente, um ar mais sério e preocupado. No país cheira a fim de ciclo.

Pedro Gomes Sanches escreve de acordo com a antiga ortografia