Opinião

Temo-me de Lisboa, que ao cheiro deste Moedas o reino nos despovoe

A direita teve uma vitória extraordinária em Lisboa. Digo-o assim, numa frase só, para que não restem dúvidas. Mas, parafraseando Sá de Miranda, temo-me de Lisboa, que ao cheiro deste Moedas o reino nos despovoe. Ou seja: inebriada com a vitória de Moedas, a direita corre o risco de se esquecer do resultado nacional

A direita teve uma vitória extraordinária em Lisboa. Digo-o assim, numa frase só, para que não restem dúvidas. Mas, parafraseando Sá de Miranda, temo-me de Lisboa, que ao cheiro deste Moedas o reino nos despovoe. Ou seja: inebriados com a vitória de Moedas, a direita corre o risco de se esquecer do resultado nacional.

Nos últimos dias, o primeiro-ministro, talvez intuindo um certo desgaste do seu partido, pôs a carne toda no assador: ameaçou uma empresa portuguesa, contradisse-se, justificou-se mal, prometeu dinheiro que não é seu aos autarcas do seu partido, chantageou as populações dizendo que a "bazuca" não é para autarcas que não estejam alinhados com a "estratégia" do governo e confundiu o partido com o Estado. O normal. E o que é que fez Rui Rio? Defendeu o Tribunal Constitucional em Coimbra; uma revisão constitucional para diminuir o número de deputados no Parlamento, cujo poder, com o fim dos debates quinzenais, já tinha erodido; e perdeu as eleições. O novo normal.

Sublinho: perdeu as eleições. Rio e todo o espaço de centro-direita. Lamento este anti-clímax, mas na leitura nacional que se pode fazer destas eleições, o centro-direita perdeu-as: em número de câmaras, em número de autarcas e no somatório de votos. Outra vez. É certo que tem boas razões para festejar. Ganhar Lisboa é sempre um passo importante para ganhar o país, mas o pior que pode fazer é iludir-se que Lisboa é o país. Pior: que Rui Rio é Carlos Moedas. E são os perigos destas ilusões, à boleia do “ah, mas foi Rio que escolheu Moedas, tem que se lhe dar esse mérito”, que talvez valesse a pena mitigar; desde logo evitando, lembrando o velho Lord Acton, que não tivessem o efeito de álcool em estômago vazio.

Já cá voltamos.

Hoje, 27 de Setembro, é também dia de celebrar os 481 anos da Companhia de Jesus fundada por Santo Inácio de Loyola. 481 anos contam uma história absolutamente extraordinária de resiliência, adaptação e sucesso, que contrastam com um tempo de obsolescências várias e falta de foco. E o que é que um Santo nascido no século XV tem hoje para ensinar ao centro-direita? Uma lição de liderança. Ou, como Chris Lowney a colocou, de Liderança Heróica. Explico melhor: Lowney, que foi Jesuíta, abandonou a Companhia para ingressar como executivo na JP Morgan. Nesta confluência de saberes e experiências, escreveu um livro chamado precisamente Liderança Heróica; onde aplica à gestão o que aprendeu com Santo Inácio. Esses ensinamentos estendem-se à política? Avalie o estimado leitor.

Lowney sintetiza - não pela ordem que vo-las apresento - em quatro características a liderança heróica. Primeiro, o engenho: “os líderes sentem-se à vontade num mundo em mudança e fazem com que os outros também se sintam”. Segundo, o heroísmo: “os líderes imaginam um futuro inspirador e esforçam-se por lhes dar forma em vez de se limitarem a ver o futuro acontecer à sua volta. Os heróis não ficam à espera que lhes surjam oportunidades de ouro: retiram o ouro das oportunidades que têm à mão.” Terceiro, o auto-conhecimento: “os líderes prosperam por compreenderem quem são e o que valorizam, por tomarem consciência das suas fraquezas e por cultivarem o hábito de estar sempre a aprender”. E quarto, o amor. Não se deixem impressionar, não há aqui nada de lamechice delicodoce: “os líderes enfrentam o mundo com confiança, por serem dotados de talento e de potencial para liderar. Encontram exactamente os mesmos atributos nas outras pessoas, e entregam-se a libertar esse potencial tanto em si como nos outros. Os líderes criam ambientes rodeados e estimulados pela lealdade, afecto e apoio recíproco”.

Estar à vontade num mundo em mudança, imaginar um futuro inspirador, cultivar o hábito de aprender, levar os outros a libertar o seu potencial e criar ambientes estimulados pela lealdade. Acham mesmo que isto se adequa a Rui Rio (ou a Rodrigues dos Santos)? Têm-se sentido muito inspirados por ele(s)?

Quando é que Rio (ou Rodrigues dos Santos), no país, deu mostras de querer conquistar o poder, e não se limitar a esperar que ele lhe caia no colo (ou de ir à boleia de alguém que o leve)? Anos de falta de capacidade de marcar a agenda, de comunicação avulsa, ineficaz e incoerente, quando não ridícula. Anos de incapacidade de criação de uma marca alternativa ao socialismo, do qual tem sempre dificuldade de se demarcar. É Rio a alternativa positiva a Costa, ou apenas uma alternância resignada? Insisto: em Lisboa, Moedas foi o rosto desse engenho, desse heroísmo, desse auto-conhecimento e dessa capacidade de potenciar o talento do outro. E saiu vitorioso, contra tudo e contra todos. E reconheço: foi uma escolha de Rui Rio. Mas é sobretudo o contraste entre ambos, entre o que cada um deles representa que, à escala nacional, o PSD terá de avaliar (e o CDS também). Na dúvida perguntem-se: lançar Cristiano Ronaldo em campo, alguma fez de Lazlo Boloni o melhor treinador do mundo?

O pior que o centro-direita pode fazer é embarcar no paradoxo de, tendo perdido as eleições, só encontrar vencedores. É certo que estas eleições são um somatório de 308 eleições locais, e é aceitável dizer-se que a culpa não pode ser imputável a Rui Rio (nem a Rodrigues dos Santos). Mas, também por isso, dificilmente se pode afirmar que as que ganhou são mérito seu. Aliás, nalguns casos, como Cascais ou Vale de Cambra, para dar exemplos de presidentes dos dois partidos, o centro-direita ganhou por mérito exclusivamente local, e, diga-se justamente, apesar das lideranças nacionais dos partidos vencedores.

Indignados, ainda na ressaca da noite de ontem, perguntam-me porquê esta crítica, quando a direita celebra finalmente uma vitória em Lisboa? Já vos respondi: porque a vitória é de Carlos Moedas. E porque se a direita não virar a página, à escala nacional, esta vitória, ontem em Lisboa, revelar-se-á nas legislativas de 2023 "poucochinha". Pelo que se pode ver no mapa das eleições de ontem, o centro-direita é um espaço cada vez mais fragmentado. Podem contrapor, ad nauseaum, com Lisboa e com uma dinâmica virtuosa de vitória, mas pior que fragmentado é o facto de ser insuficiente. Somem os votos todos à direita do PS: é neste estado fragmentado, disperso, “poucochinho” que querem ir a jogo com o PS em 2023?

Sem uma mensagem clara e de esperança para os portugueses, uma visão ambiciosa e de futuro para o país, e com a recorrente incapacidade de inscrever um tema que seja na agenda mediática, o PSD (e o CDS) continuam a não convencer. Acreditar que o feito de Moedas é extensível a Rio (e a Rodrigues dos Santos) não é um salto de fé, é uma fezada. É por isso que repito: não me temo do PS, mas temo-me de Lisboa, que ao cheiro deste Moedas o reino nos despovoe.

Post scriptum - As referências ao CDS e ao seu presidente estão entre parênteses sempre junto às referências ao PSD e ao seu presidente, para respeitar a estratégia do partido.

Pedro Gomes Sanches escreve de acordo com a antiga ortografia