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Não podemos ter uma coisa (mutualização da dívida) e o seu contrário (liberdade em relação às troikas)

24-09-2021

Ouvir alemão na minha própria casa é um pouco irónico, visto que chumbei na escola devido à minha incapacidade para encaixar esta língua que parece uma caixa de velocidades encravada. Mas essa ironia linguística tem acontecido devido às amigas que as minhas filhas vão fazendo nas escolas. E tem acontecido com gosto: temos muito a aprender com os povos germânicos. Há dias dei um jantar para uma série de casais amigos. Quando estava a pôr a mesa, reparei que tinha três pratos esbeiçados, não muito, não cortariam ninguém. Num reflexo pacóvio, atirei os pratos para o lixo dizendo que não estavam em condições. A minha amiga alemã passou-se, arengou em alemão e em português: “Pois, os portugueses são todos muito ricos, não é?” Tive direito a uma troika dentro da minha própria casa. Ri-me para não dar uma resposta à PCP soberanista: “Na minha casa mando eu!” A verdade, porém, é que ela tinha razão. Os pratos podiam continuar a uso. A ética da poupança está antes da estética.