Exclusivo

Opinião

Como dar cabo de um país

Estes dias pardos fazem recordar os dias cinzentos da agonia de Salazar e do caetanismo. A vida seguia igual e não parecia haver esperança de furar a monotonia da incompetência. Apetecia o exílio

H. é uma imigrante ucraniana. O país dela é o que se sabe, o Presidente é um palhaço, diz ela várias vezes, com um esgar de repugnância. Nacionalista rejeitada pela pátria, escolheu Portugal para viver e trabalhar e tem passaporte português. Detesta Putin e a ditadura russa e deu-se bem por cá, integrada numa comunidade exemplar, indo à igreja, trabalhando de manhã à noite. H. é uma máquina de trabalho e de confiança e invariavelmente otimista. Quando me queixo de Portugal, ela encolhe os ombros e diz que a Ucrânia é pior e que Portugal tem coisas boas. Está separada da família pelo covid, e não vê o filho há mais de um ano, ou a mãe, que não é nada nova. Nenhuma amargura lhe desenha rugas nos lábios ou na testa e aguenta a resma dos dias com uma coragem e uma obstinação típicas da gente daquele lado do mundo. Nunca se queixa. Vê sempre o lado brilhante da vida, como na canção dos Monty Python.

Quando a ouvi dizer, uns dias antes de partir para a Ucrânia, “tenho de sair de Portugal, não aguento mais estar aqui, preciso de respirar, todos os dias más notícias, mas notícias, não aguento”. Estava morta por ir embora. Para a Ucrânia, que não se parece com as Maldivas. Não eram saudades, era cansaço de Portugal.