Opinião

Azar e sorte no morrer

A hora, o mês, o momento. A morte tem dias

26-02-2021

Até para morrer é preciso ter sorte. Há dias bons. Há dias maus. Veja-se a Farrah Fawcett, premiada atriz, símbolo das mulheres loiras bonitas que se recusaram a ser rotuladas e lutou merecidamente por um lugar do lado do QI. Então vai-me morrer no mesmo dia que o Michael Jackson, o rei da pop e sabe-se lá mais do quê? Bem sei que isto já foi há algum tempo, para 2009, mas estou precisamente a usar um exemplo que não choque sensibilidades. Ora o que aconteceu é que ninguém deu pela morte de Farrah Fawcett. Tivesse ocorrido um dia antes e teria tido minutos nos noticiários. Mesmo cá. Assim, passou para a história o que dia em que passou para a história.

Estes meses de pandemia têm sido um varrer de gente. Parece que só o vírus mata. E mata muito. Ficámos dessensibilizados às mortes e ainda mais aos números quando atingem as centenas. Fomos retirados dos rituais — acabaram-se as idas aos velórios e funerais — e tudo se resume a um pesar em forma de mensagem no Facebook ao amigo que nos anuncia a sua perda. Vamos constatando que vai morrendo gente que nos era importante, artistas, atores, escritores, amigos que não víamos há muito. Mas tudo se resume a ficar a saber. O vírus. Não há despedidas nem cerimoniais. Repito: nisto do morrer há sorte e azar. Dias bons e dias maus.

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