Depois dos casos confrangedores de “chico espertismo” na toma de vacinas, a nomeação do vice almirante Gouveia e Melo para coordenador do respetivo plano nacional foi uma notícia tranquilizadora. Os que conhecem este oficial da armada são unânimes no reconhecimento da sua coragem e capacidade de liderança. Terá sido pois uma boa decisão, também por os militares estarem especialmente habilitados para missões de emergência que exijam planificação e uma cadeia de comando clara. Infelizmente, foi preciso o desnorte desta operação complexa para evidenciar a atualidade das forças armadas.
Tal como muitos outros, defendo a democracia civilista. Se o termo for aplicável ao conceito, significa que considero que as forças armadas não devem envolver-se em questões políticas. Aliás, desde 1851 que esta tem sido a prática portuguesa. A partir desta data, quase todos os regimes foram de base civilista: a segunda fase da Monarquia liberal (1851-1910), a I República (1910-1926) e o Estado Novo (1933-1974). As exceções foram a Ditadura Militar (1926-1933) e, já em democracia, o período de 1974 a 1982, tempo de coabitação ambígua e por vezes conflituante entre civilismo e militarismo (primeiro com a Junta de Salvação Nacional e depois, a partir de 1975, com o Conselho da Revolução).
Ao contrário do que se possa pensar, os regimes civilistas não são pois exclusivos das democracias. As ditaduras também podem ser de base civilista, como o Estado Novo, mas uma democracia militarista já será um contrassenso. No caso da nossa democracia, os governos da AD foram cruciais para a afirmação definitiva do civilismo. Adelino Amaro da Costa foi o primeiro civil a desempenhar o cargo de Ministro da Defesa no pos 25 de abril (1980) - aliás, depois dele todos os ministros o foram - e a revisão constitucional de 1982, que extinguiu o Conselho da Revolução, pôs ponto final na tutela militar. Desde então, o civilismo afirmou-se definitivamente, e hoje quase não sofre contestação alguma.
Mas ser civilista não significa menorizar o papel fundamental das Forças Armadas. Para além de serem um garante de soberania, participam ativamente em missões internacionais de paz, e beneficiam do intercâmbio de experiências militares no âmbito da NATO. A sua experiência em situações de emergência é valiosa. Também, as Forças Armadas são fonte de conhecimento em áreas tão diversas como a medicina, engenharia, matemática, cartografia ou História, gerando saber e empregos.
Remetidas a uma desejável descrição numa democracia civilista, a sua importância não tem sido porém suficientemente valorizada, fruto porventura de preconceitos ideológicos ou de lembranças compreensivelmente traumáticas. Tal é injusto, como injusto é tomar o todo pela parte e julgar os militares por casos mediáticos pouco abonatórios, como o de Tancos. A maioria dos militares nada tem a ver com encenações rocambolescas e, convém lembrar, as forças armadas continuam a ser pilares de um estado soberano.
O Presidente da República fez portanto bem em querer um militar à frente da coordenação do plano de vacinas, ideia também defendida por PSD e CDS. Gouveia e Melo não é melhor escolha por ser militar, mas esta condição não deixa de constituir uma mais valia. Como afirmou o almirante Melo Gomes, antigo Chefe do Estado Maior da Armada, o vice almirante Gouveia e Melo nunca colocaria o seu interesse pessoal à frente do país. Para ele, como para muitos outros militares, o compromisso com a comunidade estará sempre em primeiro lugar. É do que precisamos. Foi necessário uma urgência como esta para tomarmos consciência da importância e utilidade das forças armadas. Seria importante não o voltarmos a esquecer quando chegar a bonança por que todos ansiamos