No dia previsto, recebeu a carta registada com aviso de receção. Esperou um pouco antes de abrir envelope. Procurou o abre-cartas. Ah, quem tinha um desses era o avô dele. Olhou o envelope a contraluz. Engano. Podia ser um engano. Outra mensagem. Abriu-o por fim. Despedido. Pôs a carta dentro do envelope, dobrou-o e pousou-o na credência ao lado da fruteira usada para as chaves e as coisas inúteis que se trazem nos bolsos para dentro de casa: talões, folhetos de lojas, cartões com o número de telefone de empresas de desentupimento. Agora que pensava nisso… Não.
O essencial. E o essencial é, porra, dezassete anos. Dezassete anos dá quanto em meses? Em turnos? E em horas? Ui, uma catrefada. Ao menos uma despedida. Um despedimento com despedida, jantar de homenagem, plaquinha de agradecimento, relógio a fingir de ouro, colegas no pasmo da bebedeira a rodarem a rolha de cortiça nos dedos, na toalha de papel, antes do brinde e do discurso e do carro que tem de aquecer e também eles à espera da despedida. A não ser que. Pois. A não ser que.
As coisas são o que são. Uma carta é melhor do que nada, mesmo que a isso obrigue a lei dos homens. Uma carta é melhor do que nada. Onde é que já se viu? Até tem vergonha de pensar assim. Ao ponto a que chegou. Quanto mais te dobras. Quem é que lhe dizia isso? O avô? Não, esse era o do abre-cartas. Nem falava com ele. Morreu de repente. Olha, sorte a dele. Nunca recebeu uma carta a informá-lo “exmo. Fulano de tal, serve a presente” e por aí fora.
Ao fim e ao cabo, vejamos, dezassete anos. De suor, que dá jeito para o drama, de chamadas a meio da noite ou nas folgas para safar o serviço, não é assim, temos de ser uns para os outros, qu’isto nunca se sabe o dia d’amanhã, o Vítor está com um febrão, o puto do Carlos partiu a perna, o Gonçalves tem a senhora dele no hospital, a sogra do Barbas quinou e sabes como é, e lá ia ele desenrascar. Para quê? A cartinha, a cartinha. A menina dos RH disse-lhe, vai receber a cartinha. E os Correios funcionam mal, é o que dizem, mas nestas coisas não falham, está visto.
Discussões em casa. Quantas? Ora, se fosse a fazer contas. Que ele só via o trabalho à frente, que só falava do trabalho e quando não falava do trabalho não falava. Caladinho que nem um rato? Não. Uma estátua. Um bibelô ali no meio da sala, na mesa de jantar. Calado. A pensar no trabalho, problemas que se arrastavam e se levavam para casa como o raio dos papéis nos bolsos e o moíam em noites sem pregar olho, cabeça para o teto até a resposta lhe aparecer de repente da lama do cansaço ou a despertá-lo quando estava mesmo-mesmo a entrar no sono.
Para quê? Uma carta de despedimento. Toma lá e embrulha. Toma lá que já almoçaste. Toma lá que é para não seres parvo. E ouvia já a voz da mulher em antecipações de censura, “bem te avisei”, “só tu é que não vias”, “até parece que adivinho” e subia-lhe já à garganta uma cólera preventiva e ele de punhos cerrados via-se já a dizer à mulher que não se arrependia de nada, que dera tudo pela empresa e voltaria a fazer o mesmo porque é assim que as coisas são e é isso que está certo. Nunca lhe falharam com um vencimento e ele nunca lhes falhara com o trabalho e isso também estava certo.
“Se na empresa são ingratos, problema o deles, percebes, problema o deles, raios os partam, eu fiz a minha parte e eles fizeram a deles e tudo o que vês nesta casa, tudo o que aqui tens, fui eu que o trouxe com estas mãos e todas as manhãs saí de casa sem um lamento e todas as noites voltei sem uma queixa e se não me queixei antes, não me hei de queixar agora e se tinha orgulho no que fazia, agora não hei de ter vergonha, nem me hei de arrepender, nem por nada deste mundo. Quem tem razão? Razão tenho-a eu. Eu é que tenho razão e é assim que as coisas são.”
Só que estas palavras ele nunca as disse porque a mulher veio e, quando soube, abraçou-o. “Já está. Agora é seguir em frente.” E então, sem a censura da mulher, é que… Pois claro. É que sempre foram dezassete anos.