Opinião

O furacão Cristina Ferreira e a luta das classes 2.0

A propósito das mais recentes notícias sobre a mulher mais mediática do nosso país, a jurista Eugénia Galvão Teles mostra como ninguém em Portugal escapa ao preconceito de classe, que considera “tão ou mais sistémico do que todas as outras formas de discriminação”

02-12-2020

Só conheço a Cristina Ferreira do café da esquina, cuja televisão está religiosamente sintonizada nos seus programas da manhã. Aí, sempre que dou com ela, dirijo uma breve prece aos céus para que alguém desligue a Sirene da Malveira e eu possa tomar a minha bica matinal em paz. Ou seja, o lançamento do livro “Pra Cima de Puta” passou-me ao lado, com um vago arquear das sobrancelhas perante a escolha do título. Mas, como tudo o que envolve a mulher mais mediática de Portugal, há uma altura em que já ninguém consegue ignorar.

Assim, numa entrevista com o José Alberto Carvalho em pleno “Jornal das 8”, ficámos a saber que o livro pretende ser uma denúncia e um pedido de regulamentação do esgoto a céu aberto que são as caixas de comentários. Entre a SIC e a TVI, a Cristina passou de Lady Di a Margaret Thatcher – de princesa do povo a mulher de sucesso e vítima da misoginia vigente. Pelo caminho, lançou uma petição contra o ódio e a agressão gratuita na internet que já conta com perto de 50.000 assinaturas e provocou uma tempestade no Twitter em torno do seu direito a apresentar-se como o símbolo da luta contra o cyberbullying e a sua pretensão em integrar as hostes do feminismo.

O grosso do livro consiste numa resenha dos múltiplos insultos a que foi sujeita – e a lista é longa. A maioria ataca-a na sua condição feminina e retoma todos os clichés usados contra uma mulher bem-sucedida e com poder, muitos deles com cariz sexual. Mesmo que seja uma cristã-nova nestas lides do feminismo, com este compêndio de machismo marialva, a Cristina Ferreira ganhou o seu lugar no céu ao lado das outras mártires do heteropatriarcado.

No meio deste novo furacão Cristina, não sei se foi dado relevo suficiente ao que uma grande parte dos comentários revela: o bom velho classismo da sociedade portuguesa - “podes ser a mulher mais rica e poderosa de Portugal, mas feirante foste, feirante serás”.

Faz sentido. Toda a personagem pública da Cristina Ferreira está construída em torno das suas raízes humildes, algures numa feira da Malveira. Quando lhe chamam “bimba” e “peixeira”, aquilo que se pretende enxovalhar não só a mulher, mas a sua origem. Acontece que este preconceito de classe não é um exclusivo feminino, atingindo igualmente os homens. Cavaco e Silva nunca conseguiu sair de Boliqueime; Passos Coelho será sempre de Massamá.

De certa forma, a Cristina é a nossa Oprah. Ambas nasceram num estrato social baixo e, através de programas com um formato popular, tornaram-se nas mulheres que dominam a paisagem mediática do seu país. Não têm o mesmo nível? A Oprah não é só filmes do Spielberg, clubes de leitura e entrevistas ao Obama. Os seus programas podem não ter os agudos necessários para partir todos os vidros das redondezas, mas quem for espreitar o célebre “You get a car!” vai descobrir uma boa dose de gritinhos femininos histéricos. Também a Oprah construiu uma grande parte da sua personagem pública a partir das suas raízes, só que estas assentam no Mississippi rural e nos subúrbios de Milwaukee, remetendo para a sua identidade afro-americana. Para ter uma analogia perfeita, precisava que a Joacine Katar Moreira, orgulhosamente racializada, tivesse decidido fazer televisão no horário diurno tal como faz política. É seguro que um “Querida Jô na TV” ia ter a sua dose diária de vitupérios sinistros. Mas duvido que participassem nesse coro muitos dos que não têm qualquer pejo em descrever a Cristina Ferreira como uma saloia nova-rica.

O classismo parece ser o último preconceito passível de ser emitido sem grande reprovação social, inclusive por quem, como eu, se declara feminista e antirracista, amiúde misturado com a natural superioridade dos mais instruídos - “disdain for the less educated is the last admissible prejudice”, diz-nos Michael Sandel num artigo do New York Times. Não tivesse o meu radar de classes prevalência sobre o meu radar étnico, talvez tivesse percebido sozinha as origens indianas de António Costa quando este me deu aulas. Na realidade, até ao dia em que tal me foi dito, já corria o ano letivo há vários meses, era só mais um professor de fato e gravata. E, se desligo automaticamente a televisão numa reação epidérmica à estridência da sua voz, pode muito bem ser por a Cristina Ferreira falar com um dos sons mais típicos do chamado “povinho”.

Machismo e o racismo estão vivos e recomendam-se. Mas ninguém em Portugal escapa ao preconceito de classe, tão ou mais sistémico do que todas as outras formas de discriminação. Qualquer que seja o género ou a etnia do seu alvo, o classismo salta-nos instintivamente perante quem mantém os tiques e trejeitos das suas origens mais baixas. Quando a pessoa consegue assimilar-se às classes sociais mais altas, o preconceito reaparece no elogio daquilo que foi atingido “apesar das suas origens”. Neste “apesar” respeitoso, ergue-se uma barreira onde vimos toda a nossa estratificação social e se ouve o eco da nossa diminuta mobilidade social.