Opinião

Uma observadora na COP 25

20-12-2019

Sou investigadora em filosofia e ambiente e fui observar a COP25 que decorreu em Madrid de 2 a 13/15 de Dezembro. Fui de comboio e cheguei no domingo de manhã. Fui ver o Guernica, fui sentir a cimeira social, jovem, alternativa e revolucionária e só segunda-feira entrei na Feria de Madrid. O espaço era enorme e senti-me um pouco perdida com a abundância de tudo, de seis pavilhões cheios de stands e de dezenas de salas de reuniões, do anúncio de uma centena de eventos da sociedade civil, de universidades, de instituições de carácter nacional, regional e internacional, privadas e públicas, eventos nacionais e conferências de imprensa, e de pessoas, a lista de participantes indicava 22 mil.

Depois comecei a orientar-me, havia a zona azul e a zona verde, esta última dedicada a uma sociedade civil activa e interventiva. A zona azul, da responsabilidade das Nações Unidas era mais institucional, tinha stands de alguns países, de algumas organizações e das próprias Nações Unidas, além das duas salas principais onde estavam a decorrer as negociações da COP25 (25.ª Conferência das Partes da UNFCCC), da CMP15 (15.ª reunião do Protocolo de Kyoto) e da CMA2 (segunda reunião do Acordo de Paris). Se o grande objectivo era que estas negociações corressem bem, afinal foram os side-events que demonstraram mais pujança e empenhamento.

O ano de 2019 foi tão intenso quer em termos de consciência da população, principalmente a mais jovem, quer de realização de que as alterações climáticas já chegaram, quer de interesse de instituições financeiras e algumas empresas, que a esperança de acordos políticos pragmáticos de preocupação com o futuro, agora próximo, era muito elevada. Mais ambição para o cumprimento dos objetivos que cada Parte propôs nos seus NDC (National Determined Contribution) do Acordo de Paris, trabalhar nas regras do Fundo para as perdas e danos, esclarecer questões relacionadas com o mercado de carbono eram alguns dos temas urgentes a que se queria dar força e clarificação, rumo à COP26, a realizar em Glasgow em 2020.

Estive lá quatro dias e assisti a dezenas de eventos, alguns escolhidos especificamente, outros por curiosidade e outros de forma aleatória que é um critério como outro qualquer, quando há 40 eventos à mesma hora no mesmo recinto. A minha sensação é a de que apesar de já sabermos tanto e de já termos evoluído tanto, o caminho ainda é longo, porque os problemas são complexos, a implementação de possíveis soluções não é consensual, porque muitos países em situações muito diferentes querem sempre coisas diferentes e, acima de tudo porque as questões financeiras dominam a agenda. Vai-se avançando, mas lentamente, e sendo provável que a evolução da realidade não se compadeça com este ritmo, estaremos cada vez mais vulneráveis a surpresas desagradáveis.

Apesar da minha amostra não permitir uma observação científica, a palavra ética, embora certamente presente em algumas discussões, estava ausente dos títulos dos eventos. Afastadas também, estavam as questões que importam à filosofia ambiental, pois este tipo de reuniões centra-se em respostas cada vez mais urgentes ao rumo inadequado do aumento das emissões de gases de efeito de estufa e seus impactos e não tanto em perguntas conducentes a mais ou outras reflexões, em tentar ser menos antropocêntrico, em perceber se formulámos bem as questões. Apesar disso, os temas que dominaram as discussões dentro e fora de eventos organizados poderiam facilmente ser de foro filosófico, não fossem as alterações climáticas um problema também, eminentemente ético. Uma tempestade moral como um autor referiu, com preocupações de justiça intra e intergeracionais, com preocupações com um Outro que inclui a natureza, com preocupações de hierarquização dos valores que nos estruturam. Não seria incompatível, mas o ênfase era o que estava escrito por toda a parte, o título desta COP, Tempo de Agir.

Sente-se que a indústria dos combustíveis fosseis ainda é dominante, mas muitos dos temas discutidos: tecnologia e inovação; ciência; financiamentos sustentáveis; descarbonização; sociedade civil; justiça na fase de transição; questões de igualdade de género; questões de Direitos Humanos especialmente de povos indígenas; falhas de comunicação no Diálogo Norte – Sul são encorajadores. Mas os recursos financeiros ainda são o centro à volta do qual tudo roda. Dos que não querem dar, dos que não querem investir, dos que querem continuar em investir nas tecnologias que conhecem, e dos que querem receber, ou receber mais, ou ser compensados. Num dos eventos discutia-se que as questões relacionadas com a governança, falta de transparência, inexistência de estruturas institucionais robustas justificam por vezes a difícil alocação de fundos a países ou regiões mais vulneráveis. É sempre tudo tão complexo.

No domingo, dois dias depois da data de término lá se chegaram aos documentos finais, mas sem acordo final sobre as regras do mercado de carbono. Dez anos depois do fracasso da COP15 de Copenhaga, a COP25 Chile – Madrid também fica na história, apesar do momentum criado com a Aliança da Acção Climática a que Guterres deu tanto ânimo, e de toda a mobilização criada pela Greta, como uma desilusão no caminho da tão desejada ambição de metas mais arrojadas para que não se ultrapassem os famosos 1.5 graus Celsius do nosso descontentamento.

A Europa tenta liderar o processo e o Pacto Ecológico Europeu foi apresentado no meio da Conferência, o que dá sempre algum alento. Aliás, o ambiente era de concordância generalizada sobre a gravidade da situação, mas não é fácil o consenso entre 196 partes e não creio que se devam atacar todos os países e toda uma classe política pelo que não se alcançou. Os 30 documentos finais publicados pelos três segmentos são imperscrutáveis aos olhos de estranhos ao processo de negociação, onde muitas vezes a discussão se centra sobre se determinado parágrafo comece por “saúda-se”, “tomámos boa nota”, ou apenas “tomámos nota”. De qualquer forma gosto da primeira frase que enquadra a decisão 1 da CP25: “Ciente dos esforços e preocupações da sociedade civil, em particular da juventude e dos povos indígenas, ao pedir uma ação climática global urgente e ambiciosa,”. Obrigada Greta.

Madrid ofereceu uma visita guiada aos maravilhosos desenhos de Goya. Era quarta-feira à noite, o museu do Prado estava fechado ao público, e aquelas 300 obras-primas ofereceram-se a uma centena de participantes da COP. Goya viveu num tempo conturbado, com muita pobreza, muita guerra, muita violência, muitos preconceitos e estes seus desenhos espelham esse desalento pela natureza humana. Os desenhos retratam realidades distópicas e cruéis sobre o desequilíbrio entre os ricos e os pobres, entre os que têm poder e os que não têm. O título da exposição que celebra os 200 anos do Museu inspirou-se num do autorretrato de um Goya já muito velho, apoiado em duas bengalas: “Só a vontade me resta”. Também nós não podemos desistir da vontade de continuar, de acreditar, de desenhar, de, na próxima vez, falhar melhor.

* investigadora da IFILNOVA, FCSH, UNL