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Amnistia diz que têm de ser investigados "crimes de guerra e tortura" em Moçambique. "O que vi é a morte", relatam os sobreviventes

ANDRE CATUEIRA/LUSA

Relatório divulgado esta terça-feira dá conta de que foram cometidos crimes de guerra de ambos os lados nas lutas em Cabo Delgado, incluindo das forças governamentais de Moçambique. Milhares de civis foram mortos, outros foram deslocados, e mais de um milhão precisam de ajuda alimentar

02-03-2021

Foram cometidos crimes de guerra por todos os lados que lutam na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, o que inclui rebeldes jiadistas, forças governamentais e um grupo de mercenários sul-africanos que fornece apoio de helicóptero às tropas do país, segundo um relatório da Amnistia Internacional divulgado esta terça-feira.

O relatório da Amnistia conclui que centenas de civis moçambicanos foram mortos pelos três grupos em conflito, exortando o governo de Moçambique e as organizações internacionais a investigarem potenciais crimes de guerra e a levarem-nos à justiça. Para o grupo de direitos internacionais, a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral deve "lançar uma investigação imediata e imparcial sobre a tortura e outras violações graves cometidas pelas forças de segurança em Cabo Delgado" e julgar os responsáveis.

O governo moçambicano, contactado pela agência Associated Press (AP), negou as acusações de abuso de direitos humanos identificada pela Amnistia - que apurou que mais de duas mil pessoas foram mortas, cerca de 600 mil foram deslocados e um milhão precisam de ajuda alimentar em resultado da insurgência jiadista que eclodiu há três anos em Cabo Delgado.

Civis decapitados ou "massacrados como animais"

"O que vi é a morte" e "crimes de guerra no Cabo Esquecido de Moçambique”, são alguns dos excertos de entrevistas feitas a 79 pessoas deslocadas, que constam no relatório da Amnistia, onde também figuram fotografias de satélite e outros documentos.

As atrocidades relatadas incluem ataques dos rebeldes, que "decapitaram civis ou os atacaram com machetes, massacrando-os como animais", segundo avançaram os sobreviventes aos técnicos da Amnistia. Relataram ainda que as forças armadas de Moçambique também abusaram da população e frequentemente fugiram dos ataques dos rebeldes, esquivando-se ao seu dever de proteger os civis.

O relatório da Amnistia centra-se em três grandes batalhas que ocorreram em 2020 em três cidades na costa de Cabo Delgado: Quissanga, Macomia e Mocímboa da Praia. O relatório põe a tónica no facto de a resposta dos militares moçambicanos ser apoiada por helicópteros operados pelo grupo Dyck, uma empresa militar privada dirigida pelo coronel aposentado do Zimbabué, Lionel Dyck, que é acusada, em Moçambique, de atirar indiscriminadamente granadas de mão contra a população a partir de helicópteros.

Os rebeldes são aliados do Daesh, que muitas vezes tem assumido os ataques em Moçambique. Localmente, os jiadistas são designados de 'al-shabaab', embora não tenham qualquer ligação conhecida com os rebeldes somalis com aquele nome.

Em setembro de 2020, a Amnistia Internacional acusou as forças armadas moçambicanas, policiais e militares, de graves abusos dos direitos humanos, dizendo ter tido acesso a vídeos e fotos que mostravam tortura, o desmembramento de supostos rebeldes, além do transporte de um grande número de cadáveres para valas comuns.

No novo relatório, a Amnistia cita depoimentos de habitantes de Macomia, relatando que os militares realizaram execuções sumárias no quartel-geral na cidade. A população moçambicana também testemunhou que as forças do governo frequentemente fogem dos ataques dos rebeldes, largando as armas e tirando os uniformes para se esconderem com os civis no mato, inclusive vestindo-se ocasionalmente de mulheres.

A organização conclui que o governo moçambicano deve conduzir "investigações independentes, imparciais, completas e transparentes sobre todas as alegações credíveis de tortura e de maus tratos de detidos, execuções e mutilação de corpos e outros crimes de guerra graves cometidos por soldados do exército e a polícia em Cabo Delgado", noticia a Associated Press.