Os birmaneses continuam inconformados com o golpe militar que arredou a líder pró-democracia Aung San Suu Kyi do poder e permanecem nas ruas em manifestações e ações de desobediência civil contra os generais.
Domingo as agências notíciosas deram conta de corpos que jaziam em ruas de cidades de Myanmar, na sequência da repressão pelas forças de segurança de manifestações pacíficas pela democracia. As Nações Unidas referem pelo menos 18 mortos e mais de 30 feridos, mas os grupos contestatários afirmam que as baixas foram superiores.
O gabinete de direitos humanos da ONU atribui as mortes a “disparos contra multidões” em localidades como Yangon (Rangum, a maior cidade), Dawei ou Mandalay. A organização condena a “escada de violência” e defendeu o direito dos birmaneses a “reunirem-se pacificamente e exigirem a reposição da democracia”.
Entre as centenas de detidos no domingo estão pelo menos 85 profissionais de saúde ou estudantes de medicina, segundo as Nações Unidas.
O secretário de Estado dos Estados Unidos da América, Antony Blinken, assumiu posição clara na rede social Twitter, usando o nome antigo do país, em vez de Myanmar, adotado pela junta militar em 1989: “Condenamos a violência repugnante das forças de segurança birmanesas contra o povo da Birmânia e continuaremos a promover a reponsabilização dos responsáveis. Estamos firmemente ao lado do corajoso povo da Birmânia e incentivamos todos os países a falar a uma só voz apoiando a sua vontade”.
Embaixador contestatário afastado
No dia anterior às mortes a junta militar destituiu o embaixador de Myanmar na ONU, que pedira ajuda à Assembleia-Geral das Nações Unidas para reverter o golpe. Kyaw Moe Tun foi exonerado, segundo a televisão estatal birmanesa, por ter “abusado do poder e das responsibilidades de um embaixador permanente”, já que “traiu o país”.
O diplomata, que pedira ao Conselho de Sergurança da ONU para usar “quaisquer meios necessários” para pôr fim ao golpe, frisou perante os representantes dos demais países que falava em nome do Governo de Aung San Suu Kyi (governante que está em prisão domiciliária, o único que considera legítimo. Usou mesmo o gesto inspirado na série de filmes “The Hunger Games” adotado pelos manifestantes pró-democracia. Depois de demitido, Kyaw prometeu lutar “enquanto puder”.
Já na sexta-feira a polícia dispersara protestos nas duas maiores cidades do país, Rangum e Mandalay, atirando granadas de onda de choque, disparando balas de borracha e fogo real para o ar. A força foi usada para responder a uma contestação que não dá sinais de abrandar e que ganhou um aliado de peso.
O Facebook anunciou, quarta-feira passada, que baniu as contas de militares e instituições diretamente sob o seu controlo. A medida é extensiva ao Instagram, propriedade da empresa Facebook.
“Os acontecimentos desde o golpe de 1 de fevereiro, incluindo violência mortal, precipitaram a necessidade desta proibição”, justificou a rede social. “Acreditamos que os riscos de permitir que o Tatmadaw [exército de Myanmar] continue no Facebook e no Instagram sejam muito grandes.”
‘Sala de reuniões’ dos manifestantes
O Facebook, que se tornou muito popular em Myanmar depois de o país se abrir ao mundo e permitir o acesso à Internet, é um dos canais de comunicação mais usados pela junta militar para distribuir propaganda e consolidar o poder. Mas também para criar divisões e incitar ao ódio contra a minoria muçulmana (rohingya), o que tem valido críticas e acusações de cumplicidade à tecnológica, que se acentuaram após a decisão da rede social banir o ex-Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na sequência da invasão ao Capitólio.
Após consumar o golpe, a 1 de fevereiro passado, foi no Facebook que o general Min Aung Hlaing publicou o seu primeiro comunicado oficial, que a rede apagou posteriormente.
Em paralelo, para os manifestantes, a rede social tem funcionado como ‘sala de reuniões’ para coordenarem marchas de protesto, organizarem ações de desobediência civil e divulgarem imagens das mobilizações contra o regime militar e da repressão ordenada pelos generais.
Facebook e Instagram informaram também que vão proibir a publicidade a entidades com ligações comerciais aos militares birmaneses. A medida atinge os interesses económicos dos generais. Estima-se que controlem dois grandes conglomerados de empresas que se dedicam à construção, turismo, banca, área farmacêutica, entre outros sectores.
Gato e rato na Internet
Não é a primeira vez que o Facebook se coloca ao lado dos manifestantes pró-democracia. A seguir às eleições de 8 de novembro, que Suu Kyi venceu com larga maioria e que os militares declararam inválidas na sexta-feira, a rede social fechou 70 contas falsas e páginas administradas pelos militares.
Quando se veem censurados pela rede social, os militares contornam o obstáculo e abrem novas contas, numa espécie de jogo do gato e do rato na Internet, uma versão digital de um braço de ferro mortífero.