Numa realidade que não é estranha aos portugueses, o confinamento no Canadá levou muitos habitantes a voltar-se para a produção de pão caseiro e de tudo o que gira à volta dele. E, entre outras descobertas, os canadianos começaram a reparar num detalhe: a manteiga está sempre rija, mesmo fora do frigorífico. Porquê?
A história podia parecer menor, não fosse o facto de estar a provocar um debate nacional, agora conhecido por “Buttergate” (“Manteigate”, uma referência ao escândalo que depôs o Presidente norte-americano Richard Nixon), e de ter obrigado esta quinta-feira a Dairy Farmers of Canada, organização que representa os produtores de leite do país, a emitir uma nota de recomendação aos associados.
A história já pairava sobre algumas mentes, mas ganhou força quando a autora e renomada cozinheira, fundadora da padaria One Smart Cookie, Julie Van Rosendaal decidiu usar o Twitter para lançar o debate. “Alguma coisa está a acontecer com a nossa provisão de manteiga e eu vou até ao fundo da questão”, anunciou, perguntando se alguém já tinha reparado que a manteiga não amaciava nem mesmo à temperatura ambiente. “Aguada? Borracha?”
A dúvida espalhou-se, as teorias também, mas Rosendaal fez a prometida abordagem a fundo e comprou três tipos de manteiga: uma orgânica, uma de origem francesa e outra produzida no Canadá. Duas tiveram o comportamento habitual da manteiga, que é o de ir derretendo à temperatura ambiente, uma ficou “dura como argila”. Não é preciso dizer qual. “A manteiga é tão dura — de cada vez que quero cozer ou espalhá-la nos meus waffles, ponho no micro-ondas para amolecer”, escreveu.
Julie Van Rosendaal ouviu especialistas, leu crítica, relatórios e novos dados e daí tirou uma conclusão. As vendas de leite e sobretudo de manteiga no Canadá aumentaram tanto — só no ano passado foram 12% — que os produtores de vacas passaram a alimentá-las com suplementos à base de gordura de palma, o que induz maior produção de leite aos animais, e aumenta o teor de gordura do leite. Com esse nível de gordura saturada, aumenta o chamado ponto de fusão do leite, ou seja, o patamar a partir do qual ele derrete. E assim se explicaria a dificuldade em espalhar manteiga.
O debate existe porque a resposta não satisfaz todos os intervenientes. Os primeiros a reagir foram os próprios produtores da citada Dairy Farmers of Canada (DFA), que afirmaram desconhecer qualquer relação causa-efeito entre a administração de óleo de palma e o enrijecimento da manteiga, prática que aliás, garantem, também é seguida no Reino Unido e nos EUA, como forma de aumentar os níveis de energia dos animais. “A inclusão de suplementos de gordura de palma na nutrição das vacas não é uma preocupação de saúde ou de segurança”, escreveu a organização, prometendo investigar o caso.
Esta quinta-feira, já depois de o debate sobre a manteiga ter ganhado nome próprio, a DFA emitiu um comunicado a pedir aos produtores que “considerem alternativas aos suplementos de palma”. As dúvidas ainda existem, “é apenas uma medida [de precaução] para garantir que os consumidores mantenham a confiança nos produtos lácteos em todo o Canadá”, segundo um dos membros da DFA, Gordon MacBeath, à CBC News.
O prometido grupo de investigação ainda não se reuniu formalmente, mas vai fazê-lo em breve, de acordo com o comunicado, “para avaliar a literatura científica atual, identificar lacunas nas informações e examinar as questões levantadas pelos consumidores”. A informação disponibilizada pelo Governo do Canadá é a de que o sector movimenta mais de 15 mil milhões de dólares canadianos (menos de 10 mil milhões de euros).
Os especialistas que tomaram conta do debate garantem ainda que não há qualquer ilegalidade em alimentar os animais com gordura de palma, ainda que haja reticências quanto aos seus efeitos, também em humanos. Um desses especialistas é Sylvain Charlebois, do Laboratório de Análise Agroalimentar da Universidade Dalhousie, em Halifax, na zona este do Canadá, que aponta para o facto de esta prática ser comum há mais de uma década, num artigo de opinião publicado esta terça-feira.
Para Charlebois, o grande problema levantado está relacionado com a falta de transparência dos produtores quanto à alimentação animal, que agora só ficou conhecida por um aumento sem precedentes do consumo de laticínios. Sobretudo de manteiga rija.