Internacional

“Referendo e amnistia”: separatistas são maioria no parlamento da Catalunha e pela primeira vez somam mais de 50% dos votos

Pere Aragonès, da Esquerda Republicana da Catalunha, está bem colocado nas contas para a investidura como presidente da Catalunha
Miquel Benítez/Getty Images

É a primeira vez que os partidos independentistas somam mais de metade dos votos nas eleições autonómicas. Terão maioria no parlamento regional e exigem que Madrid negoceie uma consulta popular de autodeterminação

14-02-2021

Com mais de 98% dos votos contados, os partidos independentistas somam pela primeira vez mais de 50% em eleições regionais na Catalunha. A cifra foi celebrada pelas várias forças que querem que a região saia de Espanha, as quais, por muito que as divida, leem neste resultado inédito um sinal verde para a secessão.

Esquerda Republicana (ERC) e Juntos pela Catalunha (JxC) já exigiram “consequências políticas” e o líder da ERC, Oriol Junqueras, falou de “referendo de autodeterminação” e “amnistia”, três anos depois daquele que o leva a estar hoje (como outros oito políticos catalães) a cumprir pena de prisão. Os independentistas — ERC, JxC, Candidatura de Unidade Popular (CUP, esquerda radical) e Partido Democrata Catalão (nascido de uma cisão do JxC e sem deputados nesta eleição) — somam mais de 51% dos votos e 74 deputados, quando bastam 68 para a maioria absoluta.

  • Partido dos Socialistas Catalães (PSC, ramo do PSOE): 23%, 33 deputados
  • Esquerda Republicana da Catalunha (ERC, independentistas): 21,3%, 33 deputados
  • Juntos pela Catalunha (JxC, independentistas chefiados por Carles Puidgdemont): 20%, 32 deputados
  • Vox (direita radical): 7,7%, 11 deputados
  • Em Comum Podemos (ECP, esquerda radical): 6,9%, 8 deputados
  • Candidatura de Unidade Popular (CUP, esquerda radical independentista): 6,7%, 9 deputados
  • Cidadãos (Cs, centro-direita liberal): 5,6%, 6 deputados
  • Partido Popular (PP, centro-direita): 3,9%, 3 deputados
  • Partido Democrata Europeu Catalão (PDeCat, independentista): 2,7%, 0 deputados

O futuro governo catalão dependerá das negociações das próximas semanas e das linhas vermelhas que os partidos traçarem. Estas ditarão se pesa mais a maioria independentista ou a maioria de esquerda, que também se verifica. Socialistas e Podemos estão dispostos a falar com o separatista e já se entendem há largos meses para viabilizar o Executivo central de Pedro Sánchez.

ERC e JxC não estão de acordo quanto à via para a independência, pois a primeira quer diálogo com o Governo espanhol para não repetir o fracasso da tentativa de secessão de 2017, ao passo que a segunda insiste na via unilateral. Ambas pedem, como a CUP, amnistia para os políticos presos.

À direita, festejam os radicais (Vox, na sua estreia catalã) e afundam-se os conservadores institucionais do Cidadãos e do Partido Popular. Os derrotados justificaram os maus resultados com a queda da participação, de 79% para 53%, num ato eleitoral marcado pelo mau tempo e, claro, pela pandemia.

Eis os resumos das intervenções de todos os cabeças de lista, que insolitamente falaram várias vezes ao mesmo tempo, naquilo a que o pivô da televisão estatal espanhola TVE chamou overbooking de intervenções.

Partido dos Socialistas Catalães (PSC-PSOE)

“Tivemos a noite eleitoral com que sonhávamos”, regozijou-se o líder dos socialistas catalães, Miquel Iceta. “Serei candidato à investidura como presidente”, reforçou Salvador Illa, candidato do partido a chefe do governo catalão, que entrou no palco ao som de “Changes” de David Bowie. O PSC foi o partido mais votado. Iceta, ministro da Administração Territorial há dias, entrou para o Governo espanhol com a saída de Illa da pasta da Saúde para concorrer às eleições catalãs. Defende que os resultados apontam para “diálogo e encontro”, ou seja, convergências como as que permitem ao Partido Socialista Operário Espanhol (com que o PSC é irmanado) governar Espanha. Pensa num putativo acordo com a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), que ficou em segundo lugar, e a lista esquerdista Em Comum Podemos, ramo do partido que apoia o PSOE em Madrid. “A Catalunha quer Espanha e Espanha quer a Catalunha, não há solução senão o reencontro”, defendeu Illa.

Esquerda Republicana da Catalunha (ERC)

Saído da cadeia para a campanha eleitoral (goza de um sistema em que só passa parte da semana na prisão), Oriol Junqueras, presidente da ERC, afirmou que os mais de 50% de votos somados pelas forças separatistas implica que tem de haver um referendo de autodeterminação na Catalunha. O candidato do partido a presidente da Catalunha, Pere Aragonès, falou em inglês para pedir a mediação das instituições europeias na resolução do conflito. Frisou que há maioria pela independência e “maioria de esquerda”, numa piscadela de olhos ao Podemos, com quem a ERC se entendeu para viabilizar o Governo espanhol de Pedro Sánchez. O Podemos não é separatista mas defende um referendo pactuado e a libertação dos políticos condenados pela tentativa de secessão de 2017. Junqueras e Aragonès falaram de “amnistia” e “regresso dos exilados”, ou seja, dos que fugiram para não enfrentar o julgamento. A sua missão, ao propor-se à investidura como presidente, será “construir a República catalã”. Ao mesmo tempo que fala dessa rutura com Espanha, Aragonès pede “grandes consensos” e promete “ouvir todos”.

Juntos pela Catalunha (JxC)

“O independentismo ganhou de novo as eleições”, sentenciou Carles Puigdemont, antigo presidente da Catalunha e cabeça de lista dos defensores da via unilateral para a independência. O JxC teve Foragido na Bélgica, festejou um resultado que deixa o conjunto de forças separatistas “melhor do que há três anos”. Refere-se a 2017, ano em que proclamou a independência unilateralmente, para depois a suspender, sendo em seguida demitido pelo primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy, que suspendeu a autonomia da região. “Pensámos sempre como país”, explicou a candidata do partido a presidente do governo, Laura Borràs. A seu ver a maioria independentista “tem de ter consequências políticas”, pois “a cidadania é teimosa” e emitiu “uma mensagem muito clara”

Vox

Ignacio Garriga, candidato da extrema-direita, afirmou que as eleições foram “históricas” e proclamou-se “líder da oposição ao separatismo e à esquerda”. Com 11 lugares de deputado, o Vox é o maior partido da direita espanhola na Catalunha e entra pela primeira vez no hemiciclo autonómico. “Não vos defraudaremos e não recuaremos num um milímetro”, garantiu. Santiago Abascal, o chefe nacional do partido, afirmou que este “derrotou a violência”, em alusão ao ataque com pedras de que a sua comitiva foi alvo a meio da campanha.

Em Comum Podemos (ECP)

A esquerda populista, aliada aos socialistas no Governo central com apoio da Esquerda Republicana da Catalunha, quer repetir na região a fórmula de governo central. A cabeça de lista do Em Comum Podemos (versão catalã do partido de Pablo Iglesias) às eleições regionais deste domingo, Jéssica Albiach, prometeu ligar segunda-feira a Salvador Illa, do Partido dos Socialistas Catalães (PSC), e a Pere Aragonès, da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), para lhes propor um executivo progressista, rejeitando “vetos estéreis” (referência à promessa da ERC de não pactuar com os socialistas). “Será o parlamento mais à esquerda da história da Catalunha”, lembrou. Albiach lastimou a entrada do Vox (extrema-direita) no hemiciclo pela primeira vez, como quarta força política, e frisou a necessidade de as forças democráticas erguerem um “cordão sanitário” contra aquele partido.

Candidatura de Unidade Popular (CUP)

Dolors Sabater, cabeça de lista da esquerda radical separatista, promete falar com políticos e forças sociais antes de decidir que tipo de governo apoia. Referendo de autodeterminação, liberdade para os presos, ecologia e progressismo são os pilares que indica. Com 6,7% dos votos e nove deputados, a CUP é fulcral para formar maioria independentista.

Cidadãos (Cs)

Inés Arrimadas, líder nacional do partido de direita liberal nascido para combater o separatismo, lastimou o crescimento dos independentistas, que atribui à queda da participação. “Não conseguimos mobilizar o voto moderado”, afirmou, assumindo a sua responsabilidade. O mesmo dissera minutos antes o cabeça de lista do Cidadãos na Catalunha, Carlos Carrizosa. Ambos felicitaram os socialistas do PSC por terem sido o maior partido. A abstenção foi de 46% e o Cidadãos passou de ser o mais votado em 2017 a ficar em sexto lugar, tendo perdido 30 deputados. Carrizosa pede “pactos”, “convivência” e “moderação”.

Partido Popular (PP)

Os resultados foram “muito maus”, reconheceu o cabeça de lista do Partido Popular (centro-direita) na Catalunha, Alejandro Fernández. O PP caiu de quatro para três deputados, não terá grupo parlamentar (são precisos cinco) e viu-se ultrapassado pelo partido de extrema-direita Vox. Defendendo que um projeto “constitucionalista, europeísta e liberal” é “mais necessário do que nunca” para a Catalunha, disse crer que muito desse eleitorado ficou em casa. Da direção nacional não falou Pablo Casado, líder do PP, mas sim o secretário-geral Teodoro García Egea. Culpou Pedro Sánchez pelos avanços dos partidos independentistas, que atribui às “cedências” do primeiro-ministro.