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Reações às eleições catalãs: partidos independentistas cantam vitória

A eleição ficou marcada pela pandemia, que quase provocou o seu adiamento e fez baixar a participação
Adrià Puig/Anadolu Agency/Getty Images

Separatistas celebram maioria de deputados, embora devam somar menos de 50% dos votos. Alternativa seria governo de esquerda, que parece improvável. À direita o único vencedor é o xenófobo Vox, que se estreia no parlamento catalão

14-02-2021

Com três quartos dos votos contados, as eleições autonómicas deste domingo na Catalunha confirmam as tendências sugeridas nas primeiras projeções. O Partido dos Socialistas Catalães (PSC) é o mais votado, com 23,6% e 33 deputados (num total de 135), seguido de muito perto por duas forças independentistas: Esquerda Republicana da Catalunha (ERC, 21,4% e 33 assentos) e Juntos pela Catalunha (JxC, 19,6% e 32 lugares).

Apesar da vitória socialista, a maioria no parlamento será independentista. “Estas eleições eram uma operação à medida para derrubar o independentismo uma vez mais, mas o independentismo voltará a sair e vencerá esta noite”, afirmou Sergi Sabrià, da ERC.

A número dois do PSC, Eva Granados, regozijou-se na rede social Twitter. “Ninguém contava connosco há três anos nem há três meses. Estamos na final, é um objetivo que conseguimos”. Mas os independentistas, mesmo sem chegar aos 50% de votos, terão maioria de deputados.

Além da ERC e do JxC outros dois partidos querem uma Catalunha soberana: Candidatura de Unidade Popular (CUP, esquerda radical, 6,5% e 9 deputados) e o Partido Democrata Europeu Catalão (PDeCat, cisão do JxC, 2,5%, ainda sem representação parlamentar confirmada). Na pior das hipóteses, segundo as projeções, somarão 73 deputados, acima do limiar da maioria absoluta.

“Hoje será uma grande noite para o JxC e para o independentismo”, reagiu Elsa Artadi, do partido do antigo presidente catalão Carles Puigdemont. Destacando a determinação do eleitorado em votar “num dia cinzento, frio e chuvoso”, a dirigente separatista disse acreditar que a sua candidata, Laura Borràs, possa chegar à presidência. Substituiu Puigdemont, fugido para a Bélgica e procurado pela justiça pela tentativa de secessão de 2017.

Parece mais provável que a chefia do executivo autonómico caiba a Pere Aragonès, da ERC, pois esse é o partido mais forte do bloco separatista. O candidato já preside interinamente ao governo cessante (de aliança ERC/JxC), por inabilitação judicial do antecessor Quim Torra. Este festeja uma “rotunda vitória independentista”.

Frente de esquerda em vez de frente separatista?

A alternativa a um governo separatista seria um entendimento da ERC com o PSC. Este é o ramo local do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), do primeiro-ministro Pedro Sánchez, cujo Governo a ERC viabiliza em Madrid.

Os partidos separatistas acordaram em princípio não apoiar um governo regional presidido pelo socialista Salvador Illa, antigo ministro da Saúde tornado candidato a presidente da Catalunha. Por outro lado é certo que a ERC tem defendido o diálogo com os socialistas, ao contrário do unilateralismo do JxC.

Um pacto que rompesse a barreira nacionalismo/espanholismo seria a solução desejada pelo parceiro de coligação de Sánchez: o Unidas Podemos (esquerda populista), cuja versão catalã, com o nome Em Comum Podemos (ECP), soma nas eleições regionais 7% e 8 deputados. Seria, pois, repetir na Catalunha a base do Governo central.

“Um Governo tripartido é possível”, defendeu o deputado David Cid, do ECP, referindo-se a uma tripla aliança PSC-ERC-ECP (semelhante à solução de governo que vigorou entre 2003 e 2010, ainda antes do surto independentista dos últimos dez anos). A candidata do ECP a presidente da Catalunha, Jéssica Albiach, também vislumbra “um cenário de governo de esquerda que permita aos catalães começar a respirar o futuro”.

Descalabro de PP e Cidadãos

À direita assiste-se a uma reconfiguração: o partido mais votado passa a ser o Vox (extrema-direita), quarta força na Catalunha, com 8% e 11 deputados. Soma mais votos do que os dois outros partidos conservadores de âmbito espannhol, Cidadãos e PP. O Vox celebrou efusivamente.

Para trás ficam o Cidadãos (Cs, centro-direita liberal), que foi o mais votado nas eleições de 2017 e cai agora para sétimo. Perde quase 30 deputados e fica com seis e 5,6% dos sufrágios. A líder nacional do partido, Inês Arrimadas, convocou para segunda-feira uma reunião extraordinária da direção. A televisão pública espanhola TVE admitia há pouco que pudesse demitir-se.

Outro derrotado da noite é o Partido Popular (PP), com 3,7% e 3 lugares. O partido que governou Espanha durante grande parte da história democrática nunca teve grande peso na Catalunha, mas ser ultrapassado pelo Vox é um espinho para o líder nacional Pablo Casado.

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