A situação política na Catalunha pouco deve mudar com as eleições deste domingo, em traços gerais: as forças políticas independentistas devem somar maioria de lugares no parlamento regional, apesar de ficarem aquém dos 50% de votos. Uma novidade relevante é a estreia no parlamento regional do partido de extrema-direita Vox, na quarta posição.
A formação mais votada deve ser o Partido dos Socialistas Catalães (PSC), mas ser-lhe-á difícil formar um executivo, por falta de apoios. Segundo as projeções da televisão catalã TV3 este ramo do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez) terá 24,5% dos sufrágios e 34 a 36 lugares de deputado. O seu cabeça de lista é Salvador Illa, que até final de janeiro era ministro da Saúde.
Em segundo lugar em votos mas com mais deputados (24,3%, 36 a 38 assentos) ficará a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC, independentista). Seguem-se o também independentista Juntos pela Catalunha (JxC, do ex-presidente regional Carles Puigdemont, 20,5%, 30 a 33 deputados).
Os resultados parecem apontar para um futuro executivo viabilizado pela ERC e o JxC, que governam a Catalunha em aliança desde 2015. Caso a contagem final não confirme a sua maioria, poderão voltar-se para a CUP ou o PDeCat para viabilizar um governo. No parlamento de 135 lugares são precisos 68 para ter maioria absoluta. ERC, JxC e CUP somam na pior das hipóteses 73, podendo ir até aos 78.
O candidato da ERC, Pere Aragonès, que é atualmente presidente interino (desde a inabilitação judicial do antecessor Quim Torra), fica bem colocado para ser o próximo chefe do governo.
Improvável parece um governo que junte independentistas e espanholistas. As forças separatistas comprometeram-se, dias antes da ida às urnas, a não fazer alianças com Salvador Illa.
Nove políticos presos
Aragonès chefia a candidatura republicana por impedimento do líder do partido, Oriol Junqueras. Este é um de nove políticos a cumprir pena pela tentativa de secessão de 2017, após o referendo ilegal convocado por Puigdemont e a declaração unilateral de independência feita no parlamento regional e em seguida suspensa.
Puigdemont fugiu para a Bélgica, de onde encabeçou a lista do JxC. Por estar no estrangeiro a aspirante deste partido à presidência do governo catalão é Laura Borràs.
Junqueras participou ainda assim na campanha eleitoral, como o ex-secretário regional Raül Romeva e outros políticos. Isto porque recentemente foi-lhes permitido o chamado terceiro grau penitenciário, que permite liberdade durante parte da semana.
ERC e JxC somam maioria mas existem fortes divergências entre estes dois grandes partidos separatistas. Ambos querem a independência, mas a ERC aposta no diálogo com Madrid para lá chegar, ao passo que o JxC quer reativar a declaração unilateral de independência.
Extrema-direita estreia-se no parlamento catalão
Noutra divisão ficam a Candidatura de Unidade Popular (5,4% esquerda radical separatista), com sete lugares; com seis ou sete ficam três partidos: Em Comum Podemos (6% esquerda radical coligada com o PSOE no Governo espanhol); Vox (5,9% extrema-direita); e Cidadãos (5,3% centro-direita liberal anti-independentista).
É a primeira vez que o Vox elege representantes para o parlamento catalão. Nos últimos anos o partido (a quem a questão catalã deu muita força junto do eleitorado mais conservador) tem entrado em vários parlamentos autonómicos em Espanha e também nas Cortes gerais. Em várias regiões e municípios foi essencial para formar governos de direita.
O Partido Popular (centro-direita espanhol) cai para 4,6% e 4 a 5 deputados nas eleições regionais deste domingo. O independentista Partido Democrata Europeu Catalão (PDeCat, cisão do JxC), com 2,5%, poderá ficar sem representação ou ir até aos dois assentos.
A participação caiu, numa jornada eleitoral sem incidentes de monta. O membro do governo regional responsável pelas Relações Institucionais, Bernat Solé, explicou no canal televisivo La Sexta que isso era esperado, por causa da pandemia.
Chegou a haver um pedido de vários partidos para adiar as eleições para 30 de maio, mas a justiça travou a mudança de data. No ano passado o coronavírus fez atrasar de abril para julho as eleições regionais na Galiza e no País Basco.
Uma hora para votarem contaminados e suspeitos
Este domingo em Barcelona houve a registar um protesto do grupo feminista Femen contra o partido de extrema-direita Vox, perto da Sala Bonanova, onde o respetivo líder catalão, Ignacio Garriga, depositou o seu voto. A polícia regional interveio.
As urnas funcionaram das 9h às 20h (menos uma hora em Portugal Continental) e, apesar de atrasos na abertura de algumas mesas, as autoridades eleitorais decidiram não prolongar a votação para lá da hora prevista.
Os últimos 60 minutos foram de precaução reforçada, por corresponderem ao período indicado para irem votar os infetados com covid-19 e ainda os casos suspeitos ou que tivessem tido contacto com algum contaminado.