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Embora divididos, separatistas catalães devem ser maioritários nas eleições de domingo

Laura Borràs, deputada no Parlamento espanhol, é candidata da lista separatista Juntos pela Catalunha, ligada a Carles Puigdemont, que insiste na via unilateral para a secessão
Juan Carlos Lucas/NurPhoto/Getty Images

A maioria dos estudos de opinião publicados prevê que o mais votado seja o Partido Socialista da Catalunha (PSC, associado ao PSOE), ligeiramente à frente (21-22%) dos dois partidos independentistas que governam a região: Esquerda Republicana da Catalunha (ERC, 20-21%) e Juntos pela Catalunha (JxC, 19-20%)

12-02-2021

Os partidos independentistas estão bem posicionados, segundo as sondagens, para se manterem no poder depois das eleições do próximo domingo na região autónoma espanhola da Catalunha. Há, porém, divergências entre os que querem uma Catalunhas soberana que colocam dúvidas sobre a estabilidade do futuro executivo regional.

Os nacionalistas governam a Catalunha desde 2010 (depois de o terem feito entre 1978 e 2003) e são maioria no parlamento regional. Em 2012 assumiram o desejo de romper com Espanha e desde então a tensão cresceu, culminando em 2017 na tentativa de secessão.

Unidos na fracassada declaração unilateral de independência de há três anos, que valeu penas de prisão a nove políticos separatistas (ainda a cumpri-las), estes partidos divergem quanto à estratégia a seguir.

Se a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) se tornou mais pragmática e descarta a via unilateral para a independência, o Juntos pela Catalunha (JxC, do ex-presidente catalão Carles Puigdemont, fugido à justiça espanhola na Bélgica) e a Candidatura de Unidade Popular (CUP, esquerda radical) insistem nessa mesma via.

Embora esteja no estrangeiro (caso entre em Espanha será preso, pois é acusado de sedição, rebelião e peculato), Puigdemont encabeça a lista do JxC na província de Barcelona. O partido refere-se a ele como presidente, embora tenha sido destituído pelo Governo espanhol em 2017 e o executivo regional já tenha sido chefiado, desde então, por Quim Torra (2017-2020) e Pere Aragonès (desde o ano passado).

A maioria dos estudos de opinião publicados coloca o Partido Socialista da Catalunha (PSC, associado ao PSOE) ligeiramente à frente (21-22%) da ERC (20-21%) e do JxC (19-20%). O cabeça de lista do PSC é Salvador Illa, que foi ministro da Saúde de Espanha até final de janeiro.

Unilateralismo vs. diálogo

Houve alguma distensão entre Barcelona e Madrid com a chegada ao Governo central espanhol do socialista Pedro Sánchez, em 2018. A ERC quer aproveitar essa abertura, materializada numa mesa de diálogo e, para fomentá-la, tornou-se mesmo uma das forças que viabilizam o Executivo de Sánchez, alicerçado numa coligação entre o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e a aliança de esquerda radical Unidas Podemos (UP), ainda assim insuficiente para ter maioria.

O politólogo Oriol Bartomens, professor de Ciência Política na Universidade de Barcelona, crê que os independentistas vão continuar a ter a maioriano parlamento catalão. O problema é que não têm confiança uns nos outros, o que vai gerar grande instabilidade governativa. O perito prevê que a próxima legislatura possa não durar até ao fim.

O bloco de partidos independentistas teria cerca de 47% dos votos, contra mais de 49% no bloco constitucionalista, mas os primeiros continuariam a ter mais lugares no parlamento regional, devido a um sistema de votação que valoriza os votos nas zonas rurais, com menos população e mais separatistas. Já foi isso que se passou nas últimas eleições, em 2017.

Se os independentistas tiverem maioria de lugares, apesar de divididos, seria incompreensível para os seus apoiantes que deixassem escapar a oportunidade de se manterem no poder. As bases dos partidos não iriam compreender, defende Carlos Barrera, professor de Meios de Comunicação e Política da Universidade de Navarra.

ERC será o fiel da balança

Os analistas concordam que a ERC pode ter um papel central na formação do futuro executivo na Catalunha. Só este partido poderá, eventualmente, escolher entre o bloco separatista ou fazer a ponte com os constitucionalistas ideologicamente mais próximos, como o PSC e o Em Comum Podemos (ECP, versão catalã do Podemos). O ECP tem a particularidade de ser contra a independência mas a favor de um referendo de autodeterminação negociado com Madrid. A ERC passou da via unilateral para uma posição parecida com esta.

Barrera está convencido de que a dimensão separatista vai estar por cimada ideológica e acabará por condicionar as alianças de governo. A reta final da campanha eleitoral foi marcada pela assinatura de um documento entre os partidos independentistas com assento parlamentar — JxC, ERC, CUP e ainda o PDeCat (Partido Democrático Europeu Catalão, nascido de cisão do JxC) — para que não haja pactos pós-eleitorais com o PSC.

O verdadeiro alcance deste compromisso foi posto em causa ao não ser assinado pelo cabeça de lista da ERC (o atual presidente interino Pere Aragonès), mas por figura menos importante deste partido.

A disputar o quarto lugar surge, nas sondagens, a extrema-direita espanhola (Vox, 5-8%), que terá pela primeira vez deputados no parlamento catalão. Na mesma divisão jogam o Cidadãos (direita liberal, 6 -10% e 8 a 13 lugares); CUP (5-8%, 7 a 10 deputados); e ECP (6-7%, 7 a 9 deputados).

Mais abaixo figuram o PP (3-5%, 3 a 5 deputados) e, sem probabilidade de conquistar assentos, o PDeCat, com 1-2% das intenções de voto.

Participação em baixa

A incerteza quanto ao resultado das regionais aumenta com o previsível crescimento da abstenção Muitos eleitores afirmam nos inquéritos que não irão votar. Se em 2017 eram 2% os que diziam não ir votar, agora seriam 12%. É uma percentagem superior à que se verificava antes das eleições de julho de 2020 na Galiza (4%) e no País Basco (8%) realizadas já durante a pandemia.

Estão destacados 14.200 agentes da polícia regional (Mossos d’Esquadra) e da polícia local da Catalunha para assegurar a segurança nas 2.769 mesas de voto constituídas para domingo.

A Catalunha, no nordeste de Espanha, é uma das 17 comunidades autónomas do país, com governo e parlamento regional, além de polícia própria. Com cerca de 7,8 milhões de habitantes, é das regiões mais ricas de Espanha, produzindo um quinto da riqueza do país. Tem um PIB anual superior ao de Portugal ou da Grécia.

Os executivos autónomos têm poderes importantes em áreas como Educação e Saúde e os estatutos de autonomia variam de região para região. As principais áreas de governação estão, todavia, nas mãos do Governo central: impostos, negócios estrangeiros, defesa, infraestruturas (portos, aeroportos e caminhos de ferro), entre outros.