Internacional

Monges budistas protestam na rua contra o golpe militar em Myanmar

Monges budistas num protesto em Rangum, segunda-feira 8 de fevereiro de 2021
AFP/Getty Images

A contestação ao golpe militar na antiga Birmânia sobe de tom. O país está a ser varrido pela maior onda de manifestações da última década. Como aconteceu em 2007, na que ficou conhecida por Revolta do Açafrão, os monges estão na linha da frente da luta pela democracia Em Mandalay foi decretado o recolher obrigatório entre as 20h e as 4h

08-02-2021

Catorze anos depois de terem sido símbolo da Revolta do Açafrão (assim chamada devido à cor das suas vestes), os monges birmaneses voltaram às ruas de Rangum e Mandalay e marcharam na vanguarda dos protestos, ao lado de trabalhadores e estudantes, arvorando bandeiras budistas multicolores, ao lado de faixas vermelhas da Liga Nacional para a Democracia (LND), partido da líder histórica da luta pela liberdade em Myanmar.

Aung San Suu Kyi foi afastada pelo golpe militar de 1 de fevereiro depois de a LND ter vencido as eleições de novembro passado. As forças armadas acusam-na de fraude eleitoral e importação ilegal de dez walkie talkies. Esta segunda-feira as manifestações do fim de semana prosseguem, com a participação dos religiosos.

Segundo a edição em inglês do “Myanmar Times”, foi decretado o recolher obrigatório entre as 20h e as 4h em várias localidades do país, nomeadamente Mandalay, a segunda maior cidade.

Na manhã desta segunda-feira, terceiro dia de protestos, dezenas de milhares de birmaneses encheram as ruas de Nay Pyi Taw (capital administrativa do país), Rangum (antiga capital e maior cidade) e Mandalay.

Entre os manifestantes encontram-se professores, advogados, funcionários da banca e da administração pública, de acordo com a BBC birmanesa.

Um médico — que não se quis identificar — disse à BBC: “Hoje, nós, profissionais, sobretudo funcionários públicos, como médicos, engenheiros e professores, quisemos mostrar que estamos todos juntos. O nosso objetivo é o mesmo, fazer cair a ditadura”.

A Revolta do Açafrão, em 2007, foi uma onda de manifestações pacíficas de luta pela democracia, que antecedeu a aprovação da Constituição de 2008 (a terceira desde a independência e hoje em vigor). Esse texto legal, apesar de prever uma quota fixa de militares nomeados para o Parlamento — 56 militares indigitados pelas Forças Armadas e 168 deputados eleitos na câmara alta; 110 militares e 330 deputados eleitos na câmara baixa —, representa uma abertura face ao que estava anteriormente em vigor.

Em março de 2020, Aung San Suu Kyi pressio­nou os generais a alterar a Constituição. As suas propostas visavam uma efetiva diminuição do poder político das Tatmadaw (Forças Armadas), passando pela “redução do número de deputados alocados aos militares”. Ocupava até ao golpe o cargo de Conselheira de Estado, na prática chefiando o Governo.

Os manifestantes birmaneses recuperaram o gesto de levantar a mão mostrando três dedos, que tinha sido usado nos protestos que ocorreram na Tailândia em 2014, numa alegoria aos filmes The Hunger Games.