Catorze anos depois de terem sido símbolo da Revolta do Açafrão (assim chamada devido à cor das suas vestes), os monges birmaneses voltaram às ruas de Rangum e Mandalay e “marcharam na vanguarda dos protestos, ao lado de trabalhadores e estudantes, arvorando bandeiras budistas multicolores, ao lado de faixas vermelhas” da Liga Nacional para a Democracia (LND), partido da líder histórica da luta pela liberdade em Myanmar.
Aung San Suu Kyi foi afastada pelo golpe militar de 1 de fevereiro depois de a LND ter vencido as eleições de novembro passado. As forças armadas acusam-na de fraude eleitoral e importação ilegal de dez walkie talkies. Esta segunda-feira as manifestações do fim de semana prosseguem, com a participação dos religiosos.
Segundo a edição em inglês do “Myanmar Times”, foi decretado o recolher obrigatório entre as 20h e as 4h em várias localidades do país, nomeadamente Mandalay, a segunda maior cidade.
Na manhã desta segunda-feira, terceiro dia de protestos, dezenas de milhares de birmaneses encheram as ruas de Nay Pyi Taw (capital administrativa do país), Rangum (antiga capital e maior cidade) e Mandalay.
Entre os manifestantes encontram-se professores, advogados, funcionários da banca e da administração pública, de acordo com a BBC birmanesa.
Um médico — que não se quis identificar — disse à BBC: “Hoje, nós, profissionais, sobretudo funcionários públicos, como médicos, engenheiros e professores, quisemos mostrar que estamos todos juntos. O nosso objetivo é o mesmo, fazer cair a ditadura”.
A Revolta do Açafrão, em 2007, foi uma onda de manifestações pacíficas de luta pela democracia, que antecedeu a aprovação da Constituição de 2008 (a terceira desde a independência e hoje em vigor). Esse texto legal, apesar de prever uma quota fixa de militares nomeados para o Parlamento — 56 militares indigitados pelas Forças Armadas e 168 deputados eleitos na câmara alta; 110 militares e 330 deputados eleitos na câmara baixa —, representa uma abertura face ao que estava anteriormente em vigor.
Em março de 2020, Aung San Suu Kyi pressionou os generais a alterar a Constituição. As suas propostas visavam uma efetiva diminuição do poder político das Tatmadaw (Forças Armadas), passando pela “redução do número de deputados alocados aos militares”. Ocupava até ao golpe o cargo de Conselheira de Estado, na prática chefiando o Governo.
Os manifestantes birmaneses recuperaram o gesto de levantar a mão mostrando três dedos, que tinha sido usado nos protestos que ocorreram na Tailândia em 2014, numa alegoria aos filmes “The Hunger Games”.