Internacional

Russos solidarizam-se com três irmãs que mataram o pai que as agredia e abusava

25-08-2019

Numa sociedade patriarcal, e num sistema oficial onde a Igreja Ortodoxa tem muito poder, não há garantias nenhumas de que seja aceite o argumento da autodefesa

Três adolescentes russas que mataram o seu pai ao fim de anos de violência psicólogica e física, incluindo sexual, estão a receber manifestações de solidariedade na Rússia. Uma petição a favor das irmãs já reuniu mais de 300 mil assinaturas. Mas os procuradores acusam-nas de homicídio premeditado, e no julgamento que se vai iniciar proximamente não há nenhuma garantia de que o argumento de autodefesa seja aceite.

Foi em julho do ano passado que as três irmãs cometeram o crime. Mikhail Khatchaturyan, um entusiasta das armas com 57 anos, criticou as filhas por não terem limpo bem a casa e deitou-lhes gás pimenta na cara. A seguir adormeceu num cadeirão. Então elas atacaram. Enquanto uma delas o atingia com o gás, outra esfaqueava-o e outra batia-lhe com um martelo. No final chamaram a polícia.

Rapidamente ficou estabelecido o historial de violência no lar - os próprios vizinhos tinham ido várias vezes queixar-se à polícia, que nada fizera. No entanto, os procuradores decidiram acusar as irmãs. As penas potenciais vão até 20 anos para duas das irmãs e 10 para a outra, que é menor.

Documentos revelados recentemente confirmaram a longa história de abuso a que as irmãs estiveram sujeita durante anos, e o eco crescente do caso na opinião pública levou a que as irmãs fossem libertadas enquanto esperam julgamento, embora continuem proibidas de falar a imprensa. Do outro lado da barricada, grupos como um chamado Estado dos Homens, de tendência nacionalista, atacam as irmãs, dizendo que os assassinos não têm género.

O problema da violência doméstica parece ser endémico na Rússia. Sabe-se que uma larga maioria das mulheres que se encontram presas no país foram condenadas por terem agredido ou morto o seu marido ou companheiro. Em muitos casos, fizeram-no ao fim de anos de sofrimento. Num sistema que é altamente deficiente a responder a esses casos, uma alteração legal de 2017 ainda veio piorar a situação.

Onde antes uma agressão a uma mulher ou criança era punível com prisão até dois anos, a pena passou a ser de 30 mil rublos - menos de 500 euros - ou duas semanas na cadeia. A influência da Igreja Ortodoxa russa, com a qual Putin tem uma aliança estratégica, tem contribuído para reforçar as tendências patriarcais na sociedade, levando a medidas como essa.

"O abuso doméstico é uma realidade da vida na Rússia", diz Daria Serenko, uma ativista dos direitos da mulher, citada pela BBC. "Podemos ignorá-lo, mas afeta as nossas vidas mesmo quando nunca tenhamos de o experienciar pessoalmente".