Projetos Expresso

A luta pela informação válida e por um SNS sexy

Desafios. Nos media, a guerra pela veracidade exige mais literacia da população. A batalha por um SNS mais atraente para os profissionais implica melhores condições de trabalho

Fátima Ferrão

Antecipação, planeamento, organização, gestão em rede. Palavras-chave que compõem a receita para a transformação de um sistema de saúde que está a ser ultrapassado pelas mudanças demográficas e de contexto. No Serviço Nacional de Saúde (SNS), dizem médicos e especialistas em saúde pública, mais do que injeções financeiras, são precisas mudanças estruturais e organizacionais. “Faltam modelos operacionais eficientes”, diz Guilherme Monteiro Ferreira, diretor de acesso ao mercado e assuntos externos na GSK, que recorda uma das lições deixadas pela pandemia: “Percebemos o valor e a importância das estratégias preventivas para a gestão mais eficiente dos sistemas de saúde.”

Portugueses mais indiferentes às fake news

Carlos Monteiro

Isto não significa, porém, que o dinheiro não faz falta no SNS. Pelo contrário. Desde 2013, aponta Guilherme Ferreira, que participou na conferência “Parar para Pensar: Saú­de”, promovida pelo Expresso com o apoio da Deco Proteste, “há um subfinanciamento crónico do SNS”. Um problema a que se juntam outros, como a falta de profissionais de saúde (bem patente nas notícias desde há algumas semanas), a desigualdade no acesso aos cuidados de saúde (agravada pela pandemia) e toda a gestão da saúde pública (que necessita de ser repensada e adequada à realidade). “É preciso acrescentar vida aos anos quando temos em Portugal cerca de 2,2 milhões de pessoas com idade superior a 65”, disse recentemente o presidente do Conselho Nacional de Saúde Mental, António Leuschner. O país é, entre os congéneres da União Europeia (UE), aquele que conta com uma população mais envelhecida, mas também aquele em que a qualidade de vida acima dos 65 anos é pior. A multimorbilidade (várias doenças crónicas que uma pessoa tem em simultâneo) representa 50% da carga de doença em Portugal e é um dos grandes desafios do envelhecimento da população.

Onde param os médicos formados pelo Estado?

A questão dos recursos humanos na saúde é, segundo o Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS), dos grandes desafios das próximas décadas em Portugal, especialmente numa altura em que são diárias as notícias de falta de profissionais nas urgências. Um desafio que não pode ser resolvido com soluções ‘penso rápido’, como a deslocação de médicos de outros serviços — colocando em causa consultas e tratamentos — ou com a utilização excessiva de tarefeiros. Durante o primeiro trimestre deste ano foram gastos, pelo Estado, €34 milhões em profissionais de saúde através deste mecanismo. Mas a utilização de tarefeiros não é, na opinião de André Peralta Santos, “uma má medida só por si, pois permite que existam mecanismos de compensação”. No entanto, o especialista em saúde pública e ex-dirigente da Direção-Geral da Saúde (DGS) reconhece que houve uma sobreutilização que quase criou um “mercado paralelo que provoca confusão no mercado de trabalho”. O resultado está à vista, com alguns médicos a optar por sair do SNS para trabalhar como tarefeiros, uma vez que a remuneração é superior.

As condições de trabalho e as perspetivas de carreira são outras razões pelas quais muitos profissionais de saúde saem do SNS para o privado ou para o estrangeiro. Mesmo ao nível dos estudantes, a visão de um SNS pouco atrativo está a afastá-los do sistema público, que está a formá-los para depois não conseguir retê-los. De acordo com um estudo realizado a nível universitário, cerca de 30% dos estudantes de Medicina ponderam emigrar logo após a conclusão da sua formação. Números preocupantes para o país que terá de lidar, nos próximos anos, com um elevado número de profissionais a aproximar-se da idade da reforma e com a entrada na profissão a fazer-se a um ritmo mais lento.

Apesar do desafio, André Peralta Santos mostra-se esperançado com o novo Estatuto do SNS, que considera “bem enquadrado e com bom suporte legislativo”. No novo estatuto, os recursos humanos para o sector da saúde são uma das prioridades apontadas apesar de que, acredita o especialista, “será um caminho a percorrer a longo prazo, repensando a sua distribuição entre público e privado”.

Pandemia e Ucrânia dominam conteúdos falsos

A desinformação veiculada pelas redes sociais é um fenómeno que tem ganho projeção nos últimos anos, com um crescimento mais acentuado ao longo da pandemia. O tema da covid-19 e das vacinas agregou milhares de milhões de posts e foi o alvo preferencial da manipulação informativa. Mais recentemente, a guerra na Ucrânia tem gerado igualmente muita informação falsa ou manipulada, o que dificulta a separação ‘do trigo do joio’ por parte de quem lê ou partilha esta informação.

Apesar disso, redes sociais como o Facebook ou o Instagram têm conseguido retirar milhões de conteúdos do espectro público. Entre março de 2020 e abril de 2021 foram retirados cerca de 18 milhões de conteúdos por violarem as políticas de desinformação destas marcas e por causarem danos relacionados com a covid-19. Em Portugal, diz o relatório Reuters Digital News Report, sete em cada 10 portugueses preocupam-se em perceber o que é real ou falso na internet, apesar de um aumento, entre 2021 e 2022, da percentagem daqueles que se revelam indiferentes ao tema.

Estes dados colocam um conjunto de novos desafios aos media e aos produtores de conteúdos, que lutam por manter a sua credibilidade junto de uma opinião pública que é, por um lado, mais exigente, mas que, por outro, ainda tem uma elevada taxa de iliteracia mediática. A solução não é simples, mas, como diz Luís Mergulhão, “fazer bom jornalismo nunca foi fácil”. Para o presidente e CEO do Omnicom Media Group é um desafio garantir o equilíbrio entre veracidade e qualidade da informação e o imedia­tismo e a rapidez que se exige das notícias. Uma opinião partilhada por Francisco Teixeira, que defende a importância dos meios de comunicação social e dos líderes de opinião para garantir a veracidade da informação. “Têm o papel de ajudar a compreender e a antecipar”, diz o diretor-geral da Hill+Knowlton Strategies.

Futuro do SNS depende do novo modelo

Carlos Monteiro

Adicionalmente, a questão da literacia mediática é um desafio que deve começar a ser trabalhado nos bancos da escola, desde tenra idade. As ferramentas que permitam atestar a veracidade da informação e das suas fontes devem chegar a todos, mas, para mudar mentalidades, a escola será sempre o principal veículo.

Melhor saúde e informação fidedigna

O tema da saúde ganhou protagonismo com a pandemia e está hoje sob uma forte pressão mediática. A conferência Parar para Pensar: Saúde reuniu especialistas para apontarem caminhos para a mudança: Bruno Maia, médico; Luís Goes Pinheiro, da SPMS; André Peralta Santos, especialista em Saúde Pública; Guilherme Monteiro Ferreira, da GSK; e Sónia Dias, da Escola Nacional de Saúde Pública. Outro fenómeno que ganhou expressão com a covid-19 foram as notícias falsas, que coloca em risco a veracidade da informação e cria novos desafios para os media. O tema foi debatido na conferência Parar para Pensar: Media, Informação e Fake News, que contou com Francisco Teixeira (Hill+Knowlton Strategies); Luís Mergulhão (Omnicom Media Group); Sandra Maximiano (ISEG); e Bernardo Ferrão (SIC).

Parar Para Pensar

Junho e julho são os meses que marcam o regresso do projeto “Parar para Pensar”, organizado pelo Expresso com o apoio da Deco Proteste. Este ano, o ciclo de conferências inclui temas como globalização, trabalho, mobilidade, inovação, saúde e media. Acompanhe os debates no online e veja as análises aos temas no semanário.

Textos originalmente publicados no Expresso de 15 de julho de 2022