Economia

Powell garante que banco central dos EUA não subirá taxas de juro “preventivamente”

Apesar de Jerome Powell, presidente da Fed, ter dito que a inflação subiu devido a "causas temporárias", a maioria dos banqueiros centrais teme que não seja assim
ERIC BARADAT/Getty Images

A Reserva Federal norte-americana não decidirá aumentar “preventivamente” a taxa diretora (atualmente perto de zero por cento) só porque “se teme uma possível subida de inflação”, garantiu esta terça-feira no Congresso o presidente do banco central dos EUA - que está sob pressão de republicanos

A Reserva Federal (Fed), o banco central dos Estados Unidos, não tomará decisões "preventivas" só porque "se teme uma possível subida da inflação", afirmou esta terça-feira Jerome Powell perante o comité da Câmara de Representantes sobre a crise do coronavirus.

Muito pressionado na audição por representantes republicanos, como Jim Jordan, do Ohio, e Steve Scalise, do Luisiana, o presidente da Fed manteve a posição oficial de que o disparo recente da inflação (5% em maio) é devido a "factores transitórios" e previu que haverá "uma criação muito forte de novos empregos no outono", apesar do ceticismo dos republicanos.

Powell repetiu a linha oficial da Fed de que a subida da inflação é passageira e que retornará ao objetivo de longo prazo (2%) da política monetária norte-americana. "Uma parte substancial, ou talvez mesmo todo o disparo da inflação, vem de categorias [do índice de preços no consumidor] diretamente afetadas pela reabertura da economia", argumentou Powell, para depois acrescentar: "À medida que os efeitos transitórios diminuam, é de esperar que a inflação desça para a nossa meta de longo prazo." Frisou inclusive que "é pouco provável que a inflação chegue a ficar tão alta como na década de 1970". Recorde-se que, nesse período, a inflação chegou a registar dois dígitos em alguns anos e que a média da década foi de quase 7%, o triplo da média das duas décadas anteriores.

Os representantes republicanos avisaram-no de que "os democratas estão a fazer tudo errado e que vão dificultar-lhe a vida", mas Powell recusou-se a tomar posição sobre os pacotes da Administração Biden ou as iniciativas legislativas dos democratas no Congresso. Uma postura de recusa de tomar posição sobre a esfera da política que saia fora do mandato do banco central, que Powell assumiu desde o início da sua presidência em 2017 durante a Administração Trump.

Esta audiência perante uma comissão da Câmara de Representantes ocorreu depois de Powell ter sido recebido, pela primeira vez, pelo presidente Biden na segunda-feira.

Implicações para a zona euro

A postura de Jerome Powell é, na essência, similar à de Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE). A subida da inflação a que se tem assistido (muito mais acentuada nos EUA do que na zona euro) é devida a fatores transitórios e nem a Fed tomará decisões "preventivas" (como frisou esta terça-feira Powell), nem o BCE agirá "prematuramente" (como tem repetido Lagarde).

No entanto, apesar destas semelhanças, a situação nas duas economias é muito diferente. Ainda esta segunda-feira, perante o Parlamento Europeu, Lagarde sublinhou que "a zona euro e os EUA estão em pontos muito diferentes do ciclo de recuperação económica, que a trajetória e as expectativas de inflação estão em níveis muito diferentes e que o volume de estímulos orçamentais não tem comparação - muito mais nos EUA do que a zona euro em 2021".

Lagarde considerou, por isso, que "pode ser tentador comparar as duas situações, mas isso não é apropriado". Frisou, ainda, aos eurodeputados que os impactos do sobreaquecimento norte-americano (a Fed prevê um crescimento de 7% e uma inflação média anual acima de 3% em 2021) serão "limitados" na zona euro. No período de 2020 a 2023, o impacto na economia da zona euro será de 0,15% na inflação e de 0,3% no Produto Interno Bruto, adiantou a presidente do BCE aos eurodeputados.