Os reembolsos e cancelamentos de viagens devido à interrupção forçada pela pandemia da covid-19 têm sido uma prioridade para o sector segundo a Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT), que já tem uma data em vista para a situação ficar integralmente resolvida.
"Esperamos acabar toda a fase de reembolsos até 14 de janeiro de 2022", adiantou Pedro Costa Ferreira, presidente da APAVT, num 'webinar' sobre distribuição turística da agência Message in a Bottle.
Frisando que "numa primeira fase do surto centenas de milhares de euros já foram reembolsados", o responsável da associação lembra que "o modo progrediu no tempo na questão dos reembolsos, a lei está a evoluir e está a ser dado tempo para as agências de viagens reembolsarem", em particular usando 'vouchers' que podem ser usados no período alargado de um ano, reembolsáveis se até ao final deste tempo não houver utilização, tendo Portugal aqui adotado recomendações europeias.
Acudir a remarcações e reembolsos "numa primeira fase em que toda a gente nas agências foi para casa foi extenuande, a que se somaram os repatriamentos", salienta Pedro Costa Ferreira, sublinhando que "na última fase repatriámos 30 mil pessoas para Portugal, andámos literalmente à pesca delas em 99 países". O que foi muito além dos clientes que tinham comprado por agências, segundo frisa. "Estamos a dar ajuda a milhares de pessoas que tinham comprado na Internet", garante Costa Ferreira.
Lembrando que a par de resolver as questões de reembolsos e cancelamentos "temos de manter o sonho aceso e pensar que podemos ter algumas reservas de viagens para julho e agosto", o líder da associação das agências de viagens perspetiva "oportunidades de curto prazo para produtos de nicho e de luxo fora do 'mass market'". Mas frisa que o panorama é de incerteza, dependendo dos planos de relançamento da economia a adotar por Portugal e outros países na abertura de fronteiras e retomar do transporte aéreo.
Para o presidente da APAVT, a recuperação vai ser "muito gradual e assimétrica", os tempos de entrada na economia vão ser diferentes para os vários sectores, o que também se aplica ao turismo nos diversos segmentos.
"O primeiro a mercado a entrar, em julho e agosto, é o turismo interno. No último trimestre provavelmente podemos ter alguns mercados de nicho, e só no último trimestre de 2021 poderemos pensar em ter grupos de lazer com clientes internacionais de alguma escala", avança o presidente da APAVT.
Não será nos próximos anos que o sector poderá recuperar e voltar aos valores de 2019, mas como destaca Costa Ferreira, Portugal mantém-se apelativo como "o melhor destino do mundo", está a ser apontado como exemplo no combate à pandemia, e "se calhar em 2023 estamos a ter o dobro do negócio".
Mas para as agências de viagens permanecem grandes incertezas sobre as condições e os momentos em que poderá haver retoma. "Estamos a atravessar um deserto, e vamos ter de construír um novo mundo tijolo a tijolo", enfatiza Pedro Costa Ferreira.
Novos pacotes com carro, caravana ou comboio em vez de avião
No grupo Bestravel, "perspetivávamos continuar a crescer a dois dígitos em 2020, com o turismo e a distribuição de vento em popa", quando a quebra de janeiro a março acabou de ser de 40% e a diminuição de procura de 80% para reservas novas, segundo adiantou Carlos Baptista, administrador da rede de agências.
"Estamos numa situação extremamente grave, e não vejo forma de haver resolução a breve trecho", considera o responsável da Bestravel, prevendo que no verão, e em particular a partir de setembro possa haver algum mercado internacional, sendo tudo ainda incerto. "Vamos ter sempre quebras enormíssimas, o que conseguirmos vai ser pouco para o normal, podemos ter alguns nichos de luxo mas não é isso que faz movimentar o turismo", faz notar.
Mas também antecipa que "os segmentos de mercado ligados à sustentabilidade e natureza vão ser exponenciados no momento do pós-pandemia, acredito que irá haver muitos constrangimentos nas viagens de avião, as pessoas vão privilegiar deslocações de carro, caravanas ou mesmo de comboio", como já está a ser preparado pela Bestravel.
Para o administrador da rede de agências, "a retoma das viagens numa primeira instância será para os destinos das ilhas, porque são mais isolados e podem fazer melhor o controle de saúde de quem entra e sai". Não serão "os mercados todos a abrir ao mesmo tempo" mas os que mostram ser "mercados limpos e seguros numa lógica de pandemia". Para trazer turistas a Portugal o desafio é acrescido devido às novas condições, como restrições no acesso às praias. "A praia será um recurso escasso este verão", destaca.
Cruzeiros preparados para "vender 2021 com ocupações muito baixas"
Incertezas maiores pesam sobre os cruzeiros, sector que sentiu logo o impacto da covid-19, estando as companhias "conscientes que têm de ter um bom plano" de regresso ao mercado", segundo avançou Francisco Teixeira, diretor-geral da Melair, que representa em Portugal as principais companhias internacionais de cruzeiros.
"Há companhias asiáticas que falam de novas medidas como medição de temperatura em embarques e desembarques, desinfeções e higienização de tripulantes a cada duas horas", exemplifica o responsável da Melair, que olha a prazo e diz acreditar que "2022 e 2023 possam ser anos positivos" e adiantando que "estamos preparados para vender 2021 com taxas de ocupação muito baixas".
Mas persistem grandes interrogações sobre como os portos serão reabertos, a quantidade de navios que irão permitir ou operações aéreas disponíveis para a ligação dos passageiros. "Falamos de uma indústria que trabalha com 114% da ocupação. Como vai lidar com a distância social?", questiona Francisco Calheiros, chamando a atenção para o facto de os cruzeiros serem "um produto onde o convívio social é feito em escala, em ambientes com muita gente".
Para o diretor-geral da Melair "há toda uma reinvenção de produto que tem de ser feita, e aqui a complexidade de um navio de cruzeiros tem uma dimensão tremenda, vejo muito difícil por exemplo um teatro de cruzeiros onde cabem 1400 pessoas funcionar nestas circunstâncias".
O preço que sairá do 'novo normal' é uma área crítica para os cruzeiros, considerados um produto económico para a oferta que integram. "Forçosamente, com ocupações mais baixas o modelo de negócios já não é adequado a nível de preços", reconhece Francisco Teixeira. Mas subir muito os preços também não será opção viável tendo em conta que muitos clientes estão descapitalizados com a crise.
"Não prevejo que um programa de cruzeiro possa vir a custar mais 50% ou 60%", sustenta o diretor-geral da Melair, frisando serem questões a definir "neste período de deserto" em que é fundamental "transmitir aos consumidores confiança para voltarem aos cruzeiros".