A 32ª edição dos Investor Relations & Governance Awards (IRGAwards) — uma iniciativa da Deloitte, com o apoio do Expresso, que premeia quem contribui para tornar o mercado de capitais mais eficiente, transparente, socialmente responsável e útil à economia e à sociedade portuguesa — teve como mote a liderança sinfónica. Se as empresas são orquestras, então a estratégia é a partitura, as áreas de negócio são os diferentes instrumentos, e o melhor CEO é o maestro que faz os músicos tocarem da forma mais harmoniosa possível...
Uma orquestra verdadeira chegou a tocar no palco do convento do Beato na quinta-feira à noite para anunciar a entrega dos IRGAwards. Mas o prémio de melhor maestro acabou por tocar a Miguel Maya, o presidente executivo (CEO) do BCP. O vencedor do prémio de melhor CEO lembrou esta comparação musical no seu discurso de agradecimento, ao valorizar o coletivo que é o banco BCP em detrimento da sua pessoa: “Tenho mesmo de falar de música e da orquestra pois tenho solistas fabulosos”, ironizou.
Chamado a comparar a sua empresa a uma orquestra, Miguel Maya já dissera nessa noite: “Temos uma multiplicidade de pessoas e cada uma das áreas per se não produz nada em concreto que seja útil para os clientes. Nós temos de ser capazes de pegar nas várias áreas, nos diversos instrumentos, dar coerência a esse todo e garantir que o cliente final percebe, valoriza, gosta e repete.” E acrescentou: “Toquei diversos instrumentos empresariais ao longo da minha vida e acho que faz muita diferença a paixão na forma como tentamos fazê-lo diferente e obter excelência.”
Quem acabou por arrebatar a plateia foi o já octogenário empresário Ilídio Pinho, vencedor do Lifetime Achievement Award. No discurso de agradecimento, recordou alguns dos seus amigos empresários que ajudaram o país e já partiram: “Foram empresários que procuraram responder, numa fase muito difícil do nosso país, fazendo aquilo que era necessário, e com muito sacrifício.”
Depois lembrou vários episódios que o definiram como empresário, a começar pela viagem a Moçambique, com o então primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão, quando ouviu Samora Machel dizer: “Um empresário é um lutador contra a fome.” Ilídio Pinho quis ser assim “um empresário criador para que os portugueses pudessem ter dignidade na sua condição humana” e lembrou aos presentes o “sentido de missão que é lutar pelo desenvolvimento do país e dos mais pobres e necessitados”.
Foi renhido
Prova de que as empresas portuguesas estão cada vez mais competitivas e profissionais, tanto a nível nacional como internacional, o presidente do júri, Vítor Bento, revelou ao Expresso que, na escolha dos vencedores foi preciso “dar atenção a um pormenor”, quase como se estivessem a verificar as milésimas de segundos numa corrida... “A competitividade é elevada e a escolha entre os finalistas nem sempre é fácil porque os desempenhos podem ter sido muito aproximados, uns apresentando vantagem marginal num ângulo de apreciação e outros apresentando-a noutros ângulos. E cada um dos elementos do júri tem a sua opinião e valoriza um outro detalhe.” Contudo, Vítor Bento não deixa de lembrar que “o mercado nacional é muito pequeno, com apenas meia dúzia de empresas em bolsa e todas com gestores muito competentes”.
A inovação na relação com os investidores foi uma das capacidades a que o júri deu mais atenção este ano. Diz Vítor Bento que as empresas portuguesas — cotadas e não cotadas — têm estado a destacar-se nesse sentido: “Nota-se a introdução de mudanças. Quando a EDP lança uma emissão de um Green Bond é uma forma de inovação, neste caso financeira.”
Neste contexto, Miguel Stilwell D’Andrade, da EDP, foi distinguido como melhor administrador financeiro (CFO) e Miguel Viana, também da EDP, como melhor Investor Relations Officer (IRO). Até na escolha do vencedor do Lifetime Achievement Award foi tida em conta esta capacidade de inovação. Assim foi decidido, diz Vítor Bento, não só pelo grupo industrial que Ilídio Pinho construiu ao longo dos anos, mas também pelo apoio que dá agora à ciência e à cultura (ver caixas ao lado).
A inovação pesou igualmente na escolha dos prémios Market Development Award, entregue à Outsystems, e Transformation Award, atribuído à SIBS. “A Outsystems conseguiu atrair a atenção de investidores sofisticados como a KKR e a Goldman Sachs, sem estar em bolsa. Neste caso estamos a valorizar a empresa e a capacidade transformativa que teve no mercado de capitais”, explica Vítor Bento. Recorde-se que foi em 2018 — quando completou 18 anos — que a tecnológica portuguesa conseguiu levantar 360 milhões de dólares (cerca de €226 milhões) numa ronda de investimento. Atingiu uma valorização acima de mil milhões de dólares (€905 milhões) e tornou-se o segundo ‘unicórnio’ nascido em Portugal, depois da também tecnológica Farfetch.
Já a SIBS “trata-se de um projeto muito inovador que antecipou a disrupção que está a afetar o sector, sendo o MB WAY um bom exemplo dessa inovação. Conseguiu alavancar novos produtos e fontes de receita e potenciou o crescimento de negócio internacional”, diz ao Expresso outro dos elementos do júri, António Gomes da Mota. Vítor Bento não comentou o porquê desta escolha porque é ele o presidente não-executivo da empresa.
E, segundo explicou ao Expresso, por razões de transparência e para evitar possíveis conflitos de interesse, decidiu-se que, se algum dos 10 elementos do júri tivesse alguma relação com os nomeados de uma categoria específica, então seria afastado dessa votação. “Não participei nas decisões do júri, nem assisti sequer às reuniões onde esse prémio foi debatido”, nota. Além de Vítor Bento e António Gomes da Mota, foram membros do júri António Saraiva, Clara Raposo, Duarte Pitta Ferraz, Esmeralda Dourado, João Moreira Rato, Luís Amado, Nuno Fernandes e Patrícia Teixeira Lopes.
Os Vencedores
Melhor CEO
Miguel Maya, BCP
Está no banco há 23 anos e foi precisamente em 2018 que chegou a administrador executivo (CEO), aos 55 anos de idade. “Foi escolhido tendo em conta, entre outras vertentes, a assertividade do plano estratégico do banco e da sua explicação, num contexto particularmente difícil da atividade deste sector”, explica ao Expresso o presidente do júri, Vítor Bento. De facto, quando assumiu o cargo, Miguel Maya disse que o seu grande objetivo era a mobilização dos trabalhadores e ainda a aposta nos serviços móveis do banco.
Melhor CfO
Miguel Stilwell D’Andrade, EDP
O cumprimento do plano estratégico da empresa, nomeadamente na alienação de ativos eólicos e hídricos, terá sido uma das razões para a sua escolha, mas pesou mais o seu “espírito de inovação, patente, por exemplo, na bem sucedida emissão do primeiro Green Bond português”, explica ainda Vítor Bento. Com 43 anos, Miguel Stilwell D’Andrade é também novo no cargo. Foi igualmente no ano passado que assumiu a pasta, substituindo Nuno Alves. Contudo, já integrava o conselho de administração desde 2012, onde começou por estar responsável pela EDP Comercial e depois pela atividade da empresa em Espanha. Aliás, na altura foi considerado o elemento mais novo de sempre a integrar a comissão executiva da EDP.
Melhor IRO
Miguel Viana, EDP
Ao contrário dos premiados anteriores, Miguel Viana é o investor relations da elétrica portuguesa desde 2006 e até já foi nomeado várias vezes para este prémio. “A atividade na relação com os investidores foi considerada também mais assertiva e com maior sucesso, não obstante a muito elevada qualidade de todos os seus competidores mais diretos”, notou Vítor Bento. Recorde-se que na lista de nomeados estavam Ana Negrais de Matos (Corticeira Amorim), Cláudia Falcão (Jerónimo Martins) e Rui Coimbra (BCP). Para a decisão terá pesado o facto de a EDP, enquanto empresa, ter conseguido, em 2018, valorizar-se em bolsa ao ponto de conseguir fazer falhar a OPA da China Three Gorges.
Ilídio Pinho recebe prémio Lifetime
Os IRGAwards atribuem também o Lifetime Achievement Award, atribuído a personalidades com mais de 65 anos e “cuja carreira tenha tido impacto significativo no desenvolvimento do mercado de capitais”, pode ler-se no regulamento. Nesta edição, o vencedor deste prémio foi Ilídio Pinho, empresário nascido em Vale de Cambra, em 1938, fundador do grupo COLEP, que se destacou em várias áreas da indústria, como o gás, cabos elétricos, software ou navegação. “Procurou valorizar-se, uma carreira longa de apoio à economia e ao mercado”, diz o presidente do júri, Vítor Bento. Não só “criou um grupo muito diversificado como agora dedica-se a promover a ciência e a cultura na sua fundação e em universidades, nomeadamente Aveiro”, acrescentou. Além disso, “tem uma base industrial, o que mostra que, apesar de se dizer que não há indústria em Portugal, há muita e boa”, remata.
Textos originalmente publicados no Expresso de 21 de setembro de 2019