Economia

Trump dá tiro no pé nas exportações

28-04-2019

Leah Millis/reuters

Guerra comercial afeta mais o PIB chinês do que o americano, mas as exportações dos EUA sofrem mais

A guerra comercial contra a China e outros parceiros comerciais dos EUA desencadeada no ano passado pela Administração Trump vai fazer um rombo de 6% nas exportações americanas e terá um impacto negativo de 0,3% no PIB da maior economia do mundo até 2030 (ver gráfico). “Um verdadeiro tiro no pé”, conclui o estudo de Cecilia Bellora e Lionel Fontagné, dois economistas franceses do Centre d’Études Prospectives et d’Informations Internationales (CEPII) de Paris, publicado esta semana. “Os resultados do nosso estudo mostram que as perdas geradas pela guerra comercial arriscam-se a ser mais importantes do que os ganhos para os EUA. Como em todas as guerras, infligir perdas ao inimigo é caro”, refere-nos Cecilia Bellora.

O estudo baseia-se numa simulação até 2030 dos efeitos das taxas aduaneiras lançadas pelos EUA em 2018, primeiro nas importações de aço e de alumínio e, depois, nas importações chinesas, e das retaliações ocorridas. Não conta com uma futura escalada da guerra comercial, se ela ocorrer, no caso de Washington e Pequim não chegarem a acordo em maio, e se Trump abrir novas frentes contra a União Europeia e os exportadores de automóveis para os EUA. A simulação usou o Mirage, um modelo de equilíbrio geral do CEPII, tendo como pressupostos que o ‘Brexit’ vai ser suave e que o quadro de acordos transnacionais existentes, nomeadamente no Pacífico e da parte da UE com o Canadá e o Japão se vai manter.

Ainda que a China venha a registar uma redução de 0,4% no PIB, um impacto negativo superior em uma décima ao verificado para os EUA, e a sofrer quebras importantes em sectores nucleares da sua atual especialização internacional, o efeito negativo sobre o conjunto das exportações vai ser muito menor, de cerca de metade do que se vai verificar nos EUA. Outro estudo publicado esta semana no Boletim Económico do Banco Central Europeu, realizado por Vanessa Gunnella e Lucia Quaglietti, complementa a investigação dos dois economistas franceses e revela os principais impactos da guerra comercial por sectores nos diversos países envolvidos. A China é afetada pelas taxas de Trump sobretudo na eletrónica, nas máquinas-ferramentas, nos equipamentos elétricos, no mobiliário e nos têxteis. No caso das indústrias dos EUA, as retaliações por parte da China afetam sobretudo o agroindustrial, a química, os automóveis e a eletrónica. A União Europeia, o Canadá e o México são afetados pela guerra do aço e do alumínio (ver gráfico).

O estudo dos economistas franceses revela que o sector exportador chinês vai ser mais capaz de se adaptar aos múltiplos impactos da guerra de taxas aduaneiras, sobretudo nas cadeias de valor globais e nos circuitos de exportação ligadas aos sectores que vão ser mais afetados.

Trump ignora os efeitos indiretos das taxas

Se no plano da geopolítica, a guerra comercial é a arma de eleição de Trump contra os adversários estratégicos de longo prazo (como a China) e mesmo contra parceiros e aliados, os seus efeitos diretos e indiretos na economia norte-americana parecem ser ignorados pelo “homem das Taxas Aduaneiras”, como já se autointitulou o inquilino atual da Casa Branca.

“O argumento do nosso estudo é que as cadeias de valor mundiais criaram ligações importantes e complexas entre as economias. Deste modo, avançar com medidas protecionistas tem efeitos bastante complexos”, diz Bellora. Se um determinado sector que passa a estar protegido pelas taxas aduaneiras pode melhorar de imediato os seus indicadores, isso pode prejudicar os seus clientes, em virtude do aumento dos preços dos bens agora fornecidos domesticamente, sem concorrência internacional. Isso é muito importante no caso dos bens intermédios, nomeadamente componentes e aço e alumínio.

Os efeitos nos preços nas economias da China e EUA vão ser muito diferentes. Os consumidores norte-americanos e os empresários dos sectores dependentes de importações de bens intermediários (componentes, por exemplo) que vão ficar mais caros vão pagar a fatura da política comercial de Trump. “Os preços no consumidor na China vão manifestar uma tendência de baixa. No que se refere aos EUA, a tendência vai ser para aumentar, com exceção dos sectores visados pelas retaliações por parte da China e de outros países”, sublinha-nos a economista francesa. O estudo avança que, no caso dos EUA, os custos de produção de bens manufaturados vão aumentar 0,67% e que os preços no consumidor registarão uma subida de 0,57%.

À escala internacional, a guerra comercial vai ter um efeito negativo marginal no PIB mundial e vai provocar uma redução de 0,76% nas exportações globais até 2030. O impacto na economia da UE a 27 (excluindo o Reino Unido) vai ser positivo, mas muito ligeiro em termos de PIB. “Esses ganhos são quase nulos, e só serão obtidos a longo prazo e à custa de ajustamentos que podem ficar caros”, adianta Bellora. A Alemanha vai registar um ganho nas exportações, que, no entanto, vai ser inferior ao que vai ocorrer para o Japão e o México. Este último país, vizinho dos EUA, vai registar os ganhos mais elevados com esta guerra comercial de Trump.

A guerra comercial vai afetar severamente os termos de troca da economia chinesa, deteriorando-os em 0,75%, o que obrigará o sector exportador a descer os preços para outros mercados onde não sejam impostas medidas protecionistas, o que poderá levar ao aumento das quotas de exportação para o Canadá, México e União Europeia (UE), nomeadamente Alemanha e França.
Noutra dimensão, o afundamento das exportações chinesas em diversos sectores para os EUA abre espaço, pelo menos parcialmente, a fornecedores do México, União Europeia e Japão, que possam competir com vantagem em relação a produtos de substituição fabricados nos EUA.