Economia

Jurista em Angola, viticultor no Dão

António Vicente Marques também quer fazer mel, azeite e queijo da Serra da Estrela DOP

FOTO RUI DUARTE SILVA

António Vicente Marques tem €5 milhões para transformar o mato de Carregal do Sal em vinhas

20-04-2019

“Aqui, onde temos a vinha, só havia mato impenetrável”, diz António Vicente Marques quando apresenta a quinta D. Vicente, o projeto onde está a investir mais de €5 milhões para homenagear o avô Vicente, criar uma ligação real às suas raízes, no Dão, e tentar “despertar o gosto” por aquela terra nos quatro filhos.

São 22 hectares de vinha, a que junta um hectare de floresta de carvalhos que decidiu preservar, mais três com oliveiras centenárias replantadas num alinhamento perfeito, 70 ovelhas, a pensar numa queijaria dedicada ao queijo da Serra da Estrela DOP, e 80 colmeias que quer multiplicar até às 200 para extrair mel. Tudo em Carregal do Sal, onde juntar esta área foi um pouco como montar um puzzle, comprando uma dúzia de parcelas de diferentes proprietários confinantes com o terreno principal, de 21 hectares, e assumir “mais uma série de parcelas de terra espalhadas por aí que vinham no pacote”, comenta.

O projeto amadureceu em Angola, onde António Vicente Marques viveu os últimos 20 anos dedicado ao direito, primeiro como professor universitário e depois na advocacia, nas áreas do investimento internacional e direito fiscal, o que encheu a sua carteira de clientes de multinacionais cotadas em bolsa, de áreas como o petróleo, telecomunicações, tecnologias e informática e o obriga a viajar pelo mundo.

Com escritórios em Luanda, Cabinda, Maputo, Lisboa e Porto, vive entre Angola e Portugal, com muitas viagens pelo meio, mas viu na aproximação aos 50 anos o momento certo para mais uma etapa numa vida feita de experiências diferentes, muito marcada pela infância, ao lado do avô, no campo. No seu currículo junta os trabalhos de férias em França, onde o pai vivia, na juventude, a fase do Canadá, onde aterrou aos 18 anos e chegou a ser jornalista, o regresso a Portugal para estudar Direito, em Coimbra, ao mesmo tempo que chegava à administração da Radio Clube Cantanhede, fazia parte do grupo musical Factor X ou assumia uma reprografia no polo 2 da Faculdade de Ciências para acabar a liderar uma rede de 9 reprografias na Universidade de Coimbra, onde trabalhavam 45 pessoas.

Neste regresso às origens, aos 52 anos, quer “aproveitar para mostrar que é possível reverter o abandono das terras que tem marcado o país nos últimos anos”. “E gostava de motivar e espicaçar mais pessoas a fazerem o mesmo”, confessa.

Tem mais cinco hectares de vinha conquistada ao mato, em Oliveirinha (Carregal do Sal) e arrendou 14 hectares de vinha velha, “de um projeto que naufragou” mesmo ao lado, o que lhe permitiu lançar os primeiros vinhos este ano, mas continua aberto a novas oportunidades. Emprega oito pessoas e quer plantar mais cinco hectares por ano nos próximos tempos.
Na vinha, onde tem a colaboração do enólogo António Narciso, aposta em castas tradicionais, como a Touriga Nacional ou a Tinta Roriz, quer recuperar castas da região caídas em desuso e fazer novas experiências com castas como a Syrah ou o Pinot Grigio.

Nas ruínas existentes na Quinta D. Vicente está a construir uma casa especial. Trouxe a fachada de uma casa confinante com a residência dos avôs, montando-a ali pedra por pedra para recuperar memórias de infância e ter um porto seguro para a família, mas também enoturismo e uma adega com lagares tradicionais que será ligada ao edifício através de um túnel.

Ao mesmo tempo, avança no Algarve, onde os filhos mais novos têm raízes pelo lado materno, com 12 hectares de vinha voltada para o mar, na zona de Tavira, a que poderá juntar mais oito hectares. Aqui, mais uma vez, fez nascer vinha no mato. O objetivo é lançar o primeiro vinho este ano.

Quando tudo estiver em velocidade de cruzeiro, espera produzir 600 mil litros de vinho por ano para vender a partir dos €5 até ao segmento premium na exportação. Tem como mercados alvo Angola, Brasil, América do Norte e um ou dois países europeus. Mas entretanto, tornou-se também sócio de uma empresa de móveis da região que chegou a trabalhar para a Assembleia da República e ia fechar.