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"O que me motiva particularmente é que estas pessoas procuram a dança pelo prazer de dançar"

Rafael Alvarez, um coreógrafo que trabalha com pessoas com mais de 55 anos e seniores, fala do seu novo projeto

Gabriela Silva

19-12-2021

Kintsugi é uma palavra japonesa que designa uma técnica para reparar pedaços de cerâmica, assumindo a quebra de um objeto como parte da sua história. É também o termo evocado num projeto de dança artística para cidadãos em idades ou condições físicas que muita gente não associa à dança artística. O autor do projeto é o coreógrafo Rafael Alvarez, de 45 anos. Em conversa com o Expresso, explicou que o projeto, apoiado pela Fundação Belmiro de Azevedo, é uma iniciativa da sua companhia, a BodyBuilders. As aulas e os laboratórios são abertos a todas as pessoas, mesmo as mais novas, embora o foco sejam os idosos. "É um trabalho educativo, como seria com crianças, com jovens, de uma escola superior. Algumas das técnicas são diferentes, mas é sempre o mesmo discurso à volta da dança, do corpo". Assume o propósito de intervir na sociedade, na comunidade. "A intervenção artística tem sempre uma componente social e política. Ainda mais se falarmos a partir do corpo. O corpo tem sempre uma dimensão poética, estética, política, filosófica. Estamos sempre a intervir".

Quer descrever, em termos gerais, do que se trata?

O programa Tsugi-Porto, Dança Contemporânea para maiores de 55 anos e seniores, desenvolve-se em três grandes atividades. Uma delas é a criação de um projeto regular de aulas semanas em seis lares e centros de dia da região do Porto. Abrange um universo de cerca de 80 idosos. São aulas semanas de dança contemporânea dinamizadas por mim e pela Teresa Prima, que também é coreógrafa e professora de dança como eu.

Acontecem também outras atividades. Laboratórios mensais de dança contemporânea, com uma componente mais ligada à criação coreográfica e ao desenvolvimento de competências na área da criação contemporânea, mas focadas em participantes com mais de 55 anos e seniores, mas pessoas com mais autonomia e que não estão associadas a nenhuma instituição. Essas pessoas vão descobrir esta aula, que acontece uma vez por mês no Coliseu do Porto, que é também parceiro do projeto.

Depois há uma aula mensal, do projeto Dançar com Parkinson, que acontece desde 2015 em Lisboa, e a ideia foi levá-la para o Porto.

Em outubro de 2022, vou dirigir um espetáculo coletivo com o desafio de integrar cerca de cem participantes de todas estas aulas, reunindo um grupo bastante abrangente, intergeracional, cruzando com jovens artistas, estudantes de dança. Alguns desses alunos participam também como voluntários nas aulas.

Estas são as três grandes atividades do projeto. É a dimensão de formação artística e mediação através da dança, e a dimensão de criação coreográfica por ligação à comunidade e com um caráter inclusivo.

Como vai ser esse espetáculo em outubro? O que já se pode dizer?

Não se pode dizer muito. É o desafio de juntar em palco pessoas com experiências muito diferentes da dança, mas que de alguma forma vão estar durante o ano todo a aprofundar as suas competências. No fundo, é o culminar de toda a experiência formativa e de criação desenvolvida com este grupo alargado de seniores. O próprio projeto tem uma ligação ao Japão. Tsugi é uma palavra japonesa — é roubada, ou se quiser, inspirada, numa técnica ancestral de reparar peças de cerâmica quebradas através de uma liga dourada. É essa metáfora da ligação, da união, do cruzamento através da dança.

Quando teve início o projeto Tsugi?

Em novembro. Na segunda semana do mês, foi o lançamento, com as atividades a decorrer nos lares e no Coliseu, e decorre até novembro de 2022. É um projeto com a duração de um ano, promovido pela BodyBuilders, a minha companhia, e com os parceiros locais dos diferentes lares, o Coliseu do Porto, o Balleteatro...

O projeto tem lugar integralmente no Porto?

Sim. Mas obviamente, vem na continuidade da experiência que eu já tenho de desenvolvimento de projetos com seniores e com maiores de 55 anos, através das aulas regulares e dos espetáculos que vou fazendo, seja em Lisboa, seja em Paris.

Já faz isso há muito tempo?

Criei esse projeto em 2000, portanto celebrámos 20 anos em 2019. Começou por ser um conjunto de aulas semanas que acontecem em Lisboa, mas depois foi-se desenvolvendo. Neste momento temos também laboratórios mensais em Lisboa e Paris, desde 2015, e também uma atividade de criação coreográfica. Todos os anos desenvolvo espetáculos reunindo estes participantes maiores de 55 anos. Temos estreado todos os anos um espetáculo em Paris e em Lisboa. Em Paris, esses laboratórios mensais acontecem num espaço de ligação à dança, um complexo de estúdios que se chama Micadanses, no bairro do Marais. Foi uma sinergia de contactos. Fiz uma proposta para ter estas aulas lá. Foi uma iniciativa minha e da BodyBuilders. Não foi programada. Foi uma proposta minha, e tenho um conjunto de participantes que me seguem nestes desafios.

De onde vem o interesse por este tipo de iniciativa?

Desenvolvo o meu trabalho como coreógrafo, e continuo a desenvolver, mas sempre tive um interesse bastante grande em poder ligar a minha experiência a diferentes públicos. Estou a trabalhar esta ideia da ligação à comunidade através da dança e da criação coreográfica. Para mim, é um estímulo poder trabalhar com não-profissionais, com pessoas com diferentes experiências — experiências de vida, também. Isso é um desafio criativo. Quando comecei em 2000, era uma novidade. Não havia praticamente projetos de dança com pessoas de idades mais avançadas. Hoje isso já não acontece, felizmente. Já pensamos mais no envelhecimento ativo, em poder abrir o trabalho artístico à comunidade. É uma das funções que eu acredito que a arte tem, ligar as pessoas através de diversas atividades, para pensarmos o mundo à nossa volta.

Antes destes projetos, o que fazia?

Fazia o que faço agora. Sempre diz um percurso de ligação à comunidade, de dimensão inclusiva, um pouco na invisibilidade. Nunca tive a pressão de tornar isto muito visível. Desde 1997, quando comecei o meu trabalho como coreógrafo, separava um pouco os meus percursos, o que era o meu trabalho de coreógrafo e como bailarino, e este trabalho de formação e intervenção na comunidade, inclusivo. Mas sempre o fiz. Sejam pessoas com deficiência, com doenças neurodegenerativas, com seniores, com não-profissionais... E cada vez mais faz sentido cruzar os dois, partir do meu lugar de criador para trabalhar com diferentes públicos.

O que me motiva particularmente é que estas pessoas procuram a dança pelo prazer de dançar. É o lado lúdico, mas também o interesse artístico a partir do prazer da dança. De descobrir, experimentar a dança no seu próprio corpo. Essa liberdade de encontrar a dança e a criação artística, para mim, como profissional e como criador, é muito motivante. Estes participantes que não são profissionais — embora também tenha alguns profissionais das áreas artísticas a fazer as minhas aulas — têm uma liberdade muito grande para pensar o seu corpo, para olhar para dentro e para fora. Isso para mim é uma mais-valia.

Algumas pessoas pensarão que aulas de dança para seniores são uma espécie de ginástica mais engraçada. Mas na sua perspectiva isto é concebido como uma atividade artística.

Sim. O foco é um foco artístico. A dimensão de exploração de criatividade, da identidade artística de cada participante, é muito forte. Não é de todo uma aula de dança, só. É muito mais do que o lado físico, da fisicalidade da dança. Obviamente, também existe essa dimensão da prevenção da dimensão da mobilidade, da sociabilização, mas eu diria que a dimensão artística é muito maior.

E se calhar até torna mais atraente para os participantes do que o seria uma atividade puramente física.

Sim, sim. Claro que cada participante procura aquilo que lhe faz mais sentido. Mas há um compromisso integrado entre este lado da fisicalidade, do movimento, do puro prazer de dançar, de encontrar a dança através do próprio corpo, e a dimensão de aprofundamento estético, intelectual, cultural, criativo.

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