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Cultura

50 anos da Photographers’ Gallery, em Londres: O tempora, o mores

Cinquentenário é o pretexto para uma recapitulação da história da fotografia, atualizada pela Photo London 2021

OUSADIA Retrato de Sue Davies, março de 1977 (pormenor), por Mayotte Magnus
Cortesia da National Portrait Gallery

C hamem-lhe Zeitgeist ou espírito do tempo. A verdade é que no final dos anos 60 a fotografia foi redescoberta como forma de arte comerciável em larga escala. Houvera antecedentes longínquos, como as vendas, nos anos 1850 e 60, de fotos de Roger Fenton e Julia Margaret Cameron pela P & D Colnaghi em Londres — a mais antiga galeria de arte no mundo, estabelecida em 1760 — ou a abertura em 1905 da primeira galeria de arte (291) do fotógrafo Alfred Stieglitz, em Nova Iorque. Em ambos os casos — e noutros, menos marcantes — a fotografia era vista como parente menor ou complemento das formas de arte tradicionais. Foi preciso esperar pela década de 60 para que a fotografia se começasse a impor por virtude própria, sem a bengala das outras artes.

Creio que a coragem de ‘pensar diferente’ fomentada pelas revoluções e contrarrevoluções políticas e culturais da época — dizer não à guerra e praticar o amor — terá ajudado. O cinema também fora presciente. O “Blow-Up — História de um Fotógrafo” (1966), de Michelangelo Antonioni, rodado em Londres, é protagonizado por um fotógrafo — modelado no jovem David Bailey — que terá (ou não) testemunhado um assassínio quando fotografava num parque londrino. Na realidade, as fotos foram tiradas por Don McCullin, e as cenas filmadas no estúdio do fotógrafo de moda John Cowan. Na mesma altura a revista “Camera Owner”, de perfil técnico e utilitário, evoluiu (1968) para “Creative Camera”, editada por Bill Jay e depois por Colin Osman e Peter Turner. Os tempos eram de mudança e apetecia fotografar.