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Cultura

No ocaso da existência. Crítica a “Cry Macho — A Redenção”

O ‘Macho’ do título é tanto um galo de combate que o miúdo (Eduardo Minett) treinou e traz consigo, como o próprio Mike Milo (Clint Eastwood)

Clint Eastwood continua a filmar o envelhecimento — como um bonzo irónico. “Cry Macho — A Redenção” está nas salas

Quando um cineasta notável dobra o cabo dos 90 e continua ativo, está a correr um risco. Eu vi-o a acontecer, em ato, com Manoel de Oliveira, em especial nos grandes festivais. Já (quase) ninguém escrevia sobre o concreto de cada filme, o que lá estava, o que lá se lia ou revelava. Todos incensavam, ‘o velho mestre português’, a idade passou a ser um critério — e o próprio Oliveira tinha consciência disso. Um dia disse-me ‘a idade não é mérito’, tinha inteira razão.

Ter chegado à idade que tem (é colheita de 1930!) e ter ânimo para realizar e produzir filmes (na velha Malpaso, sempre para a Warner) é algo que se deve saudar em Clint Eastwood, mas não apetece ficar a falar disso. Há, depois, outra faceta. Ele é também ator, as coisas agravam-se. No caso de Clint Eastwood agravam-se muito, porque o homem que, um dia, foi ‘Dirty Harry’ tem uma persona como ator que, para a maior parte das pessoas, predomina sobre o seu perfil de autor. E não há nada mais penoso que a indulgência, sobretudo se o recipiente desse sentimento, algo pegajoso, for um gigante da arte cinematográfica. E Clint Eastwood é-o, hoje ninguém tem dúvidas a esse respeito.